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5 estereótipos do mundo dos super-heróis que Boku no Hero Academia faz melhor que Marvel e DC



Boku no Hero Academia está voltando para sua quarta temporada e esse retorno ansiado por meses de desespero e cabelos arrancados por uma legião de fãs me pareceu a oportunidade perfeita para criar polêmica gratuita em cima de uma série de comparações vazias com os populares universos de super-heróis Marvel/DC. Com retorno marcado para o dia 12 de outubro, a série animada promete se consagrar de novo em qualidade ao adaptar o arco mais popular do mangá, Overhaul, focado no perigoso e assombroso vilão de mesmo nome, cuja habilidade de desmontar e montar de novo (em qualquer ordem) a matéria (inclusive partes do corpo de seus adversários e do próprio) vai deixar o público de cabelo em pé.

Para quem não conhece, Boku no Hero Academia se passa em um mundo onde 80% da população adquiriu repentinamente superpoderes (aqui chamados de individualidades). Nesse contexto, nosso protagonista, Izuku Midoriya, é uma exceção. Ele não tem superpoderes, mas sonha mesmo assim em estudar na U.A., uma das mais prestigiadas escolas de super-heróis do Japão.  


De qualquer forma, antes que outubro entre pela porta, vamos juntos por mais uma lista para saber 5 estereótipos do mundo dos super-heróis que Boku no Hero Academia faz melhor que a Marvel e a DC, sem ordem específica.

1. A construção de um mundo orgânico e verossímil


Boku no Hero Academia sempre se vendeu como uma homenagem japonesa a cultura de heroísmo norte-americana. Ninguém duvida que Marvel e DC sabem fazer super-herói, já que, na prática, foi a DC que inventou o gênero, mas com o avançar das décadas, a repetição dos moldes e as tentativas frustradas e frustrantes de mudar um milhão de vezes a mesma coisa para mesmo assim fazer tudo igual foi deixando o gênero um pouco maçante.

Nesse sentido, Kohei Horikoshi, o autor de Boku no Hero, soube muito bem como moldar a nostalgia e a homenagem em prol de uma história cativante e bem amarrada. Enquanto a DC e a Marvel tiveram que remendar um herói no outro, com mentes criativas diversas pensando as coisas separadas para depois juntar do jeito que desse certo, BnHA teve a vantagem de construir o universo em cima de uma proposta coesa e que funcionasse para seus personagens.

Quando você lê o mangá ou assiste o anime, a sensação de verossimilhança é palpável e facilita em muita a imersão na história. No mundo de BnHA, os heróis parecem de fato reais porque eles realmente são, é uma profissão comum e integrada a vida em sociedade. A profissão de super-herói traz realização pessoal, mas também fama e ganhos econômicos. Você pode ser o homem mais forte do mundo ou a estrela de um comercial na TV. A figura dos super-heróis é explorada em todas as suas facetas. Dá realmente para olhar para os painéis pintados por Horikoshi e pensar como o mundo seria se heróis existissem de verdade. Aliás, penso que essa é a intenção.

A DC começou o gênero para afastar essas histórias da vida real, ela deu vida a ideias fantásticas para que a realidade da crise social e econômica de sua época ficasse em segundo plano; é por isso que o Superman é perfeito, porque, naquela época, nada mais era. A Marvel veio depois e tentou aproximar os superpoderosos do mundo real; é por isso que todo mundo na Marvel é cheio de problemas pessoais, para que as coisas pareçam um pouco mais cotidianas. Boku no Hero Academia avança um pouquinho mais ao pensar uma sociedade de verdade e considerar qual seria a serventia de heróis no mundo de hoje.

2. O Superman como um símbolo e a necessidade de seguir em frente


A figura de All-Might, com seu sorriso ostensivo, musculatura saliente, pose de herói e tudo, talvez seja a imagem mais facilmente reconhecível quando se fala em BnHA, mesmo para quem não acompanha a série, já que os traços propositalmente exagerados do personagem se popularizaram no mundo dos memes. De qualquer forma, All-Mighy, o Superman do mundo de BnHA, não é o protagonista da história. Horikoshi supôs (com certo bom senso) que não havia muito espaço para conflito num homem perfeito e que um mangá a longo prazo não faria sentido sem conflito.

No ponto que a história começa, All-Might já é o maior super-herói do Japão, ele já salvou o dia vezes sem fim, já é admirado pela nação e uma estrela da TV. All-Might está no topo do mundo. Quando se chega ao topo do mundo, só dá para descer. Desse modo, All-Might sabe que vai precisar se aposentar em breve e BnHA é a história de como ele vai encontrar e preparar seu sucessor.

Nesse sentido, All-Might está na história para ser um símbolo, não para ser a história em si. Ele é o lugar onde o protagonista tem que chegar, mas ele ainda não está preparado. Como a gente já sabe quem é o Superman e o que ele é capaz de fazer, Horikoshi quer dessa vez que a gente aprenda um pouco sobre Izuku, um Zé Ninguém com um sonho impossível.


Aliás, nesse ponto, não é só Boku no Hero Academia que sai na frente das publicações norte-americanas, qualquer mangá tem princípio, meio e fim. Os autores criam um universo, exploram o que precisa ser explorado e depois fecham um ciclo. A realidade do mercado de quadrinhos norte-americanos está longe de aceitar abrir mão das galinhas de ouro. Superman, Capitão América, Homem de Ferro e Batman contam a mesma história há 80 anos e vão continuar por muito mais. Os heróis dos quadrinhos norte-americanos nunca vão ter permissão de seguir em frente e ter seu final feliz.

3. A lógica dos poderes e o equilíbrio das habilidades


Quando se lida com superpoderes (seja por mágica ou ficção científica), é essencial ter certeza que todas as regras foram estabelecidas bem cedo na história, para que uma carta não saia da manga parecendo coincidência cheia de conveniências na hora mais decisiva da trama. Brandon Sanderson, popular autor de fantasia e ficção científica, costuma dizer que não dá para ter magia sem regras restritas. Mistborn, a série mais famosa dele, é um exemplo prático de como estabelecer limites com imaginação. Para que um poder seja bom de verdade para história, os personagens precisam conhecer também suas limitações.

Eu vou mencionar o Superman de novo, porque ele foi criado para não ter defeitos e isso ajuda a entender o que deu errado nas primeiras histórias de super-heróis. Como o Superman era forte demais, foi ficando cada vez mais difícil para os roteiristas criarem desafias que batessem de frente com o herói. A kriptonita surgiu num improviso, tentando tapar os buracos na trama, mas acabou criando mais problemas, porque 1) a coisa toda não tem muita lógica (é só uma pedra verde, no fim das contas) e 2) não criou realmente uma dinâmica de poderes e limitações (ou o Superman fica sem força nenhuma ou ele fica forte demais, não é muito equilibrado nem dá espaço para trabalhar de fato as histórias). O mesmo vale para o Lanterna Verde e sua fraqueza contra madeira (e depois contra a cor amarela, que só muito depois veio fazer sentido com a introdução do conceito de Parallax e a contaminação do medo).

Em Boku no Hero Academia todas as habilidades aparecem para gente como numa grande tabela de vantagens e fraquezas de um jogo de RPG (pokémon de água são fortes contra fogo, mas têm desvantagem contra grama). Izuku Midoriya pode ter herdado os poderes do maior super-herói do mundo, mas seu corpo pequeno e sem treinamento, sem músculo e sem força, se quebra em mil pedaços toda vez que ele tenta se esforçar um pouquinho além do que seus braços são capazes. A habilidade de criação da Momo lhe permite transformar o tecido adiposo de seu corpo em qualquer tipo de objeto (sobretudo, armamento, claro), mas também exige que ela conheça à nível molecular a estrutura do objeto que quer criar, além de levar bastante tempo para que o objeto fique pronto, exigindo uma capacidade estratégica e criativa de alto nível. A eletrificação de Denki é uma poderosa arma de longo-alcance, mas também causa curto-circuito e frita momentaneamente as capacidades de seu cérebro.


Desse modo, a própria premissa de BnHA deixa claro que ter um superpoder não torna o personagem necessariamente especial (que é basicamente o que acontece com 90% dos super-heróis da Marvel, que recebem seus poderes por acidente e se veem obrigados a salvar o mundo). Todo o processo para se tornar um herói exige treinamento, conhecimento e preparo para usar suas habilidades de forma inteligente em combate, o que deixa os roteiros mais dinâmicos e cada vez mais surpreendentes, porque cada evolução nas habilidades dos personagens vem de esforço e de um certo percurso lógico. Os personagens de Boku no Hero não vão tirar um poder novo do rabo de repente só para vencer uma batalha impossível (sim, eu estou falando com você, Nanatsu no Taizai).     

4. A jornada dos heróis e a superposição de plots


Uma característica marcante dos mangás/animes do gênero shounen (voltados para o público masculino, mas, hoje em dia, não necessariamente limitado a ele), do qual Boku no Hero Academia faz parte, é uma variedade interessante de personagens, personalidades e habilidades. A trama não precisa sempre girar em torno do Homem-Aranha ou do Capitão América e você pode ter certeza que cada personagem vai ter a oportunidade de, em algum momento, contar sua história. BnHA tem um protagonista interessante e muito carismático e eu adoro acompanhar a jornada de Midoriya, um magrelo sem poderes e com um sonho impossível passando por cima de tudo para se tornar o maior super-herói do Japão, mas, às vezes, você também vai querer saber sobre Bakugo (a drama queen e rival do protagonista) e a origem de sua agressividade e inveja sem limites, às vezes você também vai querer saber sobre o drama familiar que deixou Todoroki tão frio e limitado a só metade dos seus poderes, vai querer saber sobre os problemas financeiras dos pais de Uraraka e como é para Iida carregar nos ombros o legado de sua família. Há muita construção de personagem acontecendo o tempo todo e para nós a impressão de que eles estão todos sempre crescendo um pouquinho a cada arco deixa tudo mais gratificante, porque BnHA não depende apenas do plot principal para funcionar

5. Motivações e a verdade por trás do mal


Para a cultura oriental, o mal não é um conceito a ser eliminado, mas uma metade do equilíbrio. Quando nós pensamos na cultura norte-americana (bem como na cultura ocidental em geral), há uma linha firme entre mocinhos e vilões. A gente sabe desde o início para quem devemos torcer e sabemos também que o Homem de Ferro vai derrotar o Mandarim no fim do episódio e proteger a nós todos. Há certa justiça no que o herói faz, porque ele está sempre certo, indubitavelmente certo, e o vilão vai acabar mal porque ele está sempre errado também e para nós a sensação que fica é que ele teve o que mereceu.

Hayao Miyazaki, o cineasta japonês por trás de clássicos como A viagem de Chihiro (2001) e Meu Vizinho Totoro (1988), tem críticas severas ao modo americano de contar histórias. Para ele, toda a narrativa padrão que enche as páginas dos quadrinhos e as telas do cinema reflete a mentalidade armamentista e destrutiva dos EUA como nação (aqui ele faz referência a tragédia de Hiroshima e Nagasaki). Para Miyazaki, quando os americanos veem algo que diverge de si ou com o qual não concordam, seu primeiro impulso é matar e destruir, e as histórias de super-heróis são sobre isso.

De certa forma, faz sentido. Para nós, ocidentais, toda mitologia gira em torno de um Deus todo bom contra um demônio completamente maligno. Nossos heróis e vilões são assim também (hoje, com a globalização, eu penso que as coisas procuram alguns tons de cinza também, mas vamos pensar os exemplos aqui de forma bem generalista).

Em BnHA, nós temos uma sociedade dividida entre heróis e vilões, como tinha que ser, já que a homenagem a cultura norte-americana aqui é evidente, mas a estrutura da história segue os moldes japoneses, de modo que nós temos a oportunidade de entender as motivações por trás de cada vilão e entender também que os heróis não têm que ser impecáveis. Embora All-Might seja mesmo todo bom e All for One, sua contraparte maligna, seja mesmo todo mal, o resto dos personagens estão apenas tentando achar seu lugar num mundo cheio de tons de cinza.


Por exemplo, no arco O Assasino de Heróis, somos apresentados ao vilão Stain, que mata os heróis que ele não considera dignos do papel. Para Stain, a sociedade japonesa se tornou mesquinha e fútil, pois os novos heróis assumem a profissão em busca de fama e riquezas e não compreendem o real sentido de salvar vidas e representar um exemplo positivo para as próximas gerações. Durante o arco, Stain, apesar de ser um assassino sanguinário e implacável, salva a vida de Midoriya, nosso protagonista, pois, para ele, Midoriya tem o que é preciso para se tornar um herói de verdade. No fim do arco, Stain é detido, mas se torna um mártir e muitos outros superpoderosos passar a seguir seu exemplo.

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