Swift

Crítica | Another Life (Original Netflix)



Entre filmes, animações, séries, livros e jogos acho que posso dizer que consigo aproveitar de tudo um pouco. Eu gosto de ação e de romance. Eu gosto de drama e até um pouquinho de terror (se não passar muito do limite do bom senso). Mas hoje em dia, depois de experimentar de tudo e de sobrar tão pouco tempo para escolher minhas séries (porque a gente tem que crescer e aceitar responsabilidades), eu meio que me especializei em ficção científica. Se eu penso na minha lista de séries, hoje em dia, tem pouco espaço para outras coisas. Desde clássicos repaginados como Doctor Who e Star Trek até as mais recentes Killjoys e The Expanse. Eu acho que sou capaz de gostar de qualquer coisa com uma nave, com solidão e silêncio, com as descobertas de outros mundos e outras vidas.

O que nos traz a Another Life, nova série sci-fi da Netflix. A coisa toda me constrange do início ao fim, quando começa a pensar nas ideias do roteiro. A série parece querer se vender como uma trama inteligente, cheia de ramificações e plots, com conspirações alienígenas e discussões filosóficas sobre os segredos da existência humana. Não compre! Eu gastei um parágrafo inteiro para dizer que amo ficção científica, só para que vocês saibam que: se eu gostei, o mínimo que pude de Another Life, foi só porque o tema é quase irresistível para mim, mas a série tem tão poucas qualidades técnicas, quase nada de roteiro, menos ainda de respeito por suas atuações que me faz questionar se vale mesmo a pena escrever este texto. Eu quase nunca escrevo sobre aquilo que não gosto, porque sinto que a perda de tempo nem vale o esforço. Mas Another Life, com seu vazio de tudo, vai inaugurar minha vida pelas resenhas negativas, porque, infelizmente, tenho pouca coisa boa a dizer neste caso.


A impressão que eu tenho é que Another Life é uma ficção científica pensada sessenta anos antes. Se não tivesse uma protagonista feminina (mesmo assim, a rivalidade feminina aqui é imensa e pode ser vista em todo lugar) e um casal gay, eu teria certeza que a série tinha sido escrita nos anos 1960/1970.

Tem um pouco do sentido de exploração que Star Trek trouxe no início, mas sem o frescor, sem o deslumbramento das novas ideias. Tem um pouco do mistério quase de terror que Arquivo X nos apresentou, mas não convence ninguém que alienígenas existem e que podem ser assustadores de tão incompreensíveis. Tem uma tentativa de construção de universo, política e mitologia como Battlestar Galactica e Stargate, mas parece pastiche e imitação. Às vezes, tem até um pouquinho do humor desgovernado de Doctor Who e Firefly, mas, porque os roteiros não são muito inteligentes, faz vergonha de ver.

Bem-vindos à Another Life, uma colcha de retalhos de tantas coisas boas que não dão certo no todo. Na história, um objeto alienígena chega a Terra e deixa o governo dos EUA (vocês estão surpresos?) com a pulga atrás da orelha (eu vou perguntar de novo: vocês estão surpresos??), porque se o EUA invade o mundo inteiro para matar e destruir, raças alienígenas que cheguem a Terra só podem ter a mesma mentalidade, não é mesmo? Segundo o roteiro, é mesmo. De qualquer forma, os militares investigam o objeto e tentam se comunicar (e se a conversa não fluir, matar) e ao mesmo tempo montam uma expedição para sair pelo espaço buscando os emissores alienígenas daquele sinal.


A maior parte da trama se passa dentro da nave, longe da Terra, mas não somos poupados de ver a falta de criatividade das mentes mais brilhantes da Terra ao tentar se comunicar com uma força alienígena sem tentar pensar como alienígenas e cometendo os mais diversos erros de estereotipação. Não é nenhum A Chegada, mas tenta ser, e, para mim, esse é o problema.

Na nave, a tripulação inteira é imatura e tem problemas de educação sentimental e, embora tenha em suas mãos o destino de todas as pessoas na Terra, encontra tempo e meios para transar mais e com mais variedade que todos os médicos nos elevadores de Grey’s Anatomy.

Eu honestamente não entendo as motivações ou as personalidades da maioria dos personagens, de modo que nem vale a pena tentar listar. Dito isso, a protagonista, interpretada por Katee Sackhoff, é o que nos alivia do terror do roteiro, na maior parte do tempo. A atriz entrega uma personagem entre a saudade de casa e o dever de salvar o mundo que ama, lidando com uma tripulação estranhamente insubordinada (para um grupo de militares treinados) com uma personalidade de aço, que só deixa as sutilezas e a fragilidade transparecer para nós, espectadores.


Vale mencionar também William, a inteligência artificial da nave. Samuel Anderson faz o que pode com o papel e quase entrega algo interessante, mas, do meio para o fim, o roteiro decide criar uma tensão sexual entre a nave e a capitã e eu não poderia ter me sentido mais desconfortável em assistir esse romance (vocês estão chocados? Porque os roteiristas são capazes de muito mais).

No mais, temos adolescentes aos vinte e cinco por toda parte. Como Javier, August e Oliver, que rodam, rodam e acabam a série exatamente onde começaram. A função de cada um dos três dentro da nave é bastante discutível, já que tudo que a série faz para tentar exemplificar o suposto talento de qualquer um deles é mostrá-los mexendo na fiação da nave e resolvendo qualquer problema técnico assim. Para além disso, só servem para criar mais tensão sexual mal resolvida. August dá em cima de Oliver, que não retribui, a princípio. Daí August dá em cima de Javier, que retribui, pois não tem tempo a perder. O que se segue a isso é uma espécie de triângulo amoroso que depois se torna um amor à três, que depois parece voltar a ser um triângulo amoroso, mas, às vezes, mesmo assim, é amor à três também (vocês estão confusos? Vocês estão se perguntando o que eles fizeram pelo destino da raça humana além de transar ou tentar transar durante dez episódios? Eu também. Esse foi o tipo de estresse pelo qual tive que passar ao longo da série).

Por fim, no fim da temporada, temos uma reviravolta interessante, que poderia facilmente ter acontecido no episódio dois e nos poupado da narrativa “caso da semana” puxada de Star Trek, que não parece fazer nenhum sentido com a urgência que a invasão alienígena nos propôs no primeiro episódio da temporada (eles literalmente ficam descendo em planetas estranhos, todos eles coincidentemente similares a Terra e pegam bactérias, quase morrem e vivem grandes aventuras).


Em suma: Another Life não me parece uma boa série, mas, mesmo assim, eu meio que acabei a temporada olhando para tudo com certo carinho condescendente. Eu sei que é ruim. Nada faz muito sentido, mas são pessoas dentro de uma nave, procurando novas vidas e eu disse desde o início que tenho um fraco para essas coisas. Eu não indicaria Another Life para ninguém, a crítica já diz tudo, mas eu provavelmente vou acabar assistindo a próxima temporada, porque a vida é assim e a séries péssimas também têm seu público.

Another Life se leva a sério. O roteiro parece achar que está inventando a roda em alguns momentos, parece achar que a infinidade de personagens serve para deixar a trama complexa, quando na verdade, não há muito mais na história que: adolescentes dentro de uma casa de praia. Por acaso, o destino do mundo depende de que eles consigam nadar até o outro lado do mar. Mas quem se importa? A Netflix parece capaz de dar sinal verdade para qualquer coisa ser produzida.

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