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CRÍTICA | The Boys (1° Temporada)


Isso foi diabólico” diz o personagem Butcher em algum momento de The Boys, basicamente resume todo o cerne do seriado com uma só frase, mas que no final das contas é até pouco para descrever quão insana e violenta é essa nova empreitada da Amazon Prime criada por Erick Kripke (Supernatural), Evan Goldberg (É o Fim e Preacher) e Seth Rogen (Casal Improvável e O Rei Leão) adaptada dos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson de mesmo nome lançadas entre 2006 e 2012 em uma empreitada de 72 edições.

Aqui a série da Amazon possui apenas oito episódios em sua primeira temporada, e que temporada! The Boys é simplesmente viciante e mantém uma regularidade até o fim, com um ou outro episódio irregular, mas em sua maioria a série mostra a que veio com um universo envolvente que desconstrói a figura do típico super-herói que nós estamos acostumados. A premissa da série é simples, um grupo de vigilantes se reúne para tentar derrubar um grupo de super-heróis inescrupulosos. 

A série se divide em duas frentes, a primeira acompanha a formação desses desajustados e prejudicados de alguma forma tiveram suas vidas destruídas por algum super-herói e agora se veem na busca de justiça e vingança, são: William Butcher (Karl Urban), Mother’s Milk (Laz Alonso), Frenchie (Tomer Capon), o novato Hughie Campbell (Jack Quaid) e mais tarde a misteriosa The Female (Karen Fukuhara). A segunda frente acompanha a elite dos super-heróis, conhecidos como Os Sete que têm: Homelander (Anthony Starr) uma espécie de Superman às avessas, Queen Maeve (Dominique McElligott) que tem super-força, A-Train (Jessie T. Usher) o homem mais rápido do mundo, The Deep (Chace Crawford) que tem poderes aquáticos e pode falar com animais marinhos, Black Noir (Nathan Mitchell) que tem habilidade de luta, Translucent (Alex Hassell) que tem poder de invisibilidade e a novata Annie January conhecida como Starlight (Erin Moriarty) que controla eletricidade e solta raios com as mãos. 

créditos: Amazon Prime Video
Em um seriado com muitos personagens, é fácil da narrativa se perder, mas o showrunner Erik Kripke consegue de maneira esperta focar em dois personagens chave para que a narrativa funcione de uma forma mais harmônica. O ponto de partida da série é Hughie, que após ter sua namorada assassinada de forma inusitada por A-Train, se vê no dilema de juntar a Butcher em sua missão de derrubar “Os Sete” e com isso se vingar, ou deixar de lado a questão e seguir em frente com a vida.

Por outro lado, a narrativa acompanha a jovem Starlight iniciando sua vida de heroína de elite, quando a mesma é recrutada pela a mega empresa Vough, para se juntar aos Sete como sua mais nova recruta. Com Hughie e Starlight, conhecemos bem este universo e cada personagem que habita nele e qual é a função dos heróis naquele lugar, um mundo onde super-heróis são famosos, vivem de mídia e são controlados por corporações que coordenam suas ações heroicas pelo mundo.

O ponto central de The Boys é trabalhar com a moralidade de seus personagens, a maioria deles tem dualidade latente, que hora tende para o bem e hora tende para o mal, mas uma coisa fica claro na narrativa, a maioria dos super-heróis não tem nenhum escrúpulo e são praticamente idolatrados como deuses. A inversão de papéis daqueles que seriam os “mocinhos” da história é uma boa sacada do seriado, nos fazendo odiar personagens que em universos como Marvel ou DC nós idolatramos, aqui eles são intimidadores, egocêntricos e principalmente, perigosos.

O piloto do seriado “The Name of the Game” (1x01), consegue estabelecer bem esta visão que citei anteriormente desse universo, além de mostrar quem são os verdadeiros “mocinhos” da história, mesmo que não pareçam ser por conta de suas condutas meio que duvidosas. Os episódios seguintes “Cherry” (1x02) e “Get Some” (1x03) não são tão espetaculares quanto o piloto, mas mantém o interesse mostrando mais do plano do grupo de Butcher tentando capturar “supes” enquanto vemos Homelander, The Deep e A-Train mostrarem seus lados mais imorais, por assim dizer.

créditos: Amazon Prime Video
O interessante de The Boys é que a série não tem limites, a violência gráfica esta presente a todo o momento em cenas grotescas que flertam muito com o gore e a bizarrice que a narrativa trás com sigo não poupa o expectador em nenhum momento de cenas desconfortáveis ou realmente estranhas como se percebe nos episódios “The Female of the Species” (1x04) que de longe meu episódio favorito da temporada e no ótimo “Good for the Soul” (1x05).

A reta final da temporada é marcada por boas reviravoltas, conspirações e a consolidação de um dos vilões mais frios e bizarros que já vi este ano, Homelander. Talvez este seja o personagem mais bem construído da série disparado, assim como um dos vilões com o potencial de ser um dos mais odiados do mundo das séries de TV. O ator Anthony Starr vende o personagem muito bem com seu jeito intimidador, olhar meio psicótico e seu tom sombrio na medida, nos fazendo temer cada nova atitude ou decisão deste que é o "herói" mais indestrutível do planeta.

Outro destaque da reta final que realmente me agradou, foi a relação entre Hughie e Annie, ambos representam a parte mais humana e com bom senso da série, se os outros personagens fazem coisas bizarras ao longo da série sem questionar, os dois personagens são a âncora moral da narrativa que dá um equilíbrio neste mundo sujo e perigoso. Os atores Jack Quaid e Erin Moriarty conseguem defender bem esses personagens, sem exageros e com muito a ser desenvolvido, o roteiro aqui gira em torno deles em diversos momentos e com isso ambos conseguem ser um dos pontos positivos da série. 

créditos: Amazon Prime Video
O resto do elenco coadjuvante é bastante competente em sua maioria, devo dizer que gosto da manipuladora Madelyn Stiwell (Elizabeth Shue) que aqui é aquela responsável por administrar a Vough e “Os Sete”, assim como Tomer Capon como Frenchie, outro personagem que cresce bastante pela humanidade e a relação com The Female. A produção da série é boa, os uniformes dos heróis são exagerados, mas se encaixam bem na concepção deste universo, o clima meio moderno, meio antigo, com uma paleta mais escura dá um ar de um universo mais sombrio e sujo, acentuado por uma fotografia menos solar e mais soturna é impecável. Os efeitos visuais são razoáveis, mas é o que menos importa, já que no final das contas a história é mais importante aqui.

No geral The Boys tem uma primeira temporada muito boa, que consegue prender a atenção e que impressiona pelo quão rápido consegue estabelecer sua narrativa e apresentar seus personagens. O ritmo inicial é alucinante, então talvez a reta final decepcione alguns por optar por reviravoltas mais fáceis e um desfecho no episódio “You Found Me” (1x08) que estava sendo montado desde o episódio anterior e no final acaba não surpreendendo tanto. Ainda assim há muito que se gostar aqui, como fica claro nos episódios “The Innocents” (1x06) e “The Self-Preservation Society” (1x07), que foca na conduta do que é ser super-herói e como a vida dos humanos é afetada diretamente pelas ações desses seres poderosos.

No final das contas o seriado desconstrói o mito do super-herói perfeito e defensor da humanidade, mostrando toda uma ideia sombria e como isso tem um impacto na humanidade. Não é nem estranho lembrar Watchmen assistindo ao seriado, mas The Boys tem seus próprios méritos de questionar o papel dos super-heróis e as consequências de suas ações para com a sociedade civil, e elas nem sempre são aquilo que você espera, junte isso há boas críticas sobre controle de massa e manipulação pública que ficam evidentes e podem ser mais aprofundadas futuramente, temos ai uma grande série. Portanto a adaptação encabeçada por Erik Kripke tem um começo promissor e com seu estilo único, sarcástico, violento e boca suja, crava seu espaço entre as melhores séries do ano. 


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