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Diário de Bordo | Censura na Bienal do Livro Rio 2019

A Bienal do Livro Rio sempre é um grande evento e a cada ano o público só aumenta. Em meio a tanto caos que, não só os cariocas, mas como os brasileiros de forma geral vivem, poder estar cercados de um espaço cultural, nos traz um alívio mesmo que momentâneo. O acervo é diversificado, tem literatura para todos os gostos e desejos, HQs, livros acadêmicos, religiosos, não-ficção, infantis, independente do que você procura, a Bienal do Livro vai te trazer várias opções. Além disso, o espaço conta com vários eventos onde se tratam assuntos relevantes e atuais, como democracia, empoderamento, literatura negra, cinema, luto e literatura LGBT. Para leitores, esse é um ambiente livre e seguro. 


Se você acompanha as notícias, com certeza ouviu falar na polêmica que o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, criou ao tentar censurar uma HQ (Vingadores - A Cruzada das Crianças) na qual dois homens se beijam. Bom, a hiperssexualização da mulher que foi algo natural durante tantos anos, passa batido aos olhos do prefeito, mas um simples beijo o incomodou a ponto de tentar recolher as obras. E aquele ambiente que era tão seguro e acolhedor à todos se torna então um ambiente hostil, na qual uma determinada comunidade tenta ser silenciada e censurada. 

Em uma das mesas mais aguardadas do sábado (07/09), o cientista político americano e professor de Harvard, Steven Levitsky, autor do best-seller Como as Democracias Morrem, e antropóloga Lilia Swarcz, que acaba de lançar Sobre o Autoritarismo Brasileiro, tiveram falas contundentes sobre a fiscalização da Prefeitura para recolher as HQs. Lilia abriu a conversa dizendo: "É um prazer estar aqui depois de um dia como ontem, quando tivemos um exemplo de como os governantes podem ser autoritários". O convidado americano manteve o mesmo tom: "Primeiro é preciso falar em termos fortes no que aconteceu ontem aqui com a tentativa de censura de Crivella. Já participei de eventos literários em todo o mundo e nunca vi nada parecido com o que aconteceu ontem aqui. É assim que as democracias morrem. Gostaria de aplaudir vocês que lutaram contra isso", elogiou.


Na Arena #SemFiltro, mais de 400 pessoas passaram por ela para conferir a "Literatura Arco-íris", um bate papo formado por jovens e ativistas da democracia e da diversidade. Mediados pelo ator e roteirista Felipe Cabral, seis escritores conversaram com um público ávido por descobrir o que os inspira na arte da escrita e suas estratégias na defesa da pluralidade cultural e sexual neste momento social. Autor de "Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente", Igor Pires esclareceu que começou a escrever para acalmar o coração. "Eu usei a literatura como um meio de sobrevivência, mas hoje eu vejo a escrita como um lugar de resistência", definiu. 

Thati Machado, de "Poder Extra G", contou que tinha uma sensação de não pertencimento. "Eu não via as gordas homossexuais na literatura, não via as pessoas que, como eu, sentiam-se diferentes. Então eu senti que precisaria mudar o que estava posto. E acabou acontecendo como um processo natural, porque vi na internet um caminho para fazer isso", destacou.

Em meio a tudo isso, Felipe Neto, tem a perfeita ideia de comprar 14 mil exemplares de livros com temática LGBTQ+ e distribuir para quem quisesse, sem burocracia alguma, simplesmente você chegava lá e pegava seu livro com uma fila de nem mesmo dez minutos. Então ao meio-dia começaram as distribuições, e aos poucos, milhares de livros iam sendo distribuídos. 


Depois de um certo tempo, foi encerrada a distribuição, que retornaria às 18h. Mas, devido à informação de que a prefeitura do Rio viria novamente para recolher as obras, Felipe Neto resolveu adiantar a segunda distribuição e em alguns minutos TODOS os livros foram entregues e assim não havia nada mais para ser recolhido.

Mas o que parecia sair de um livro de distopia aconteceu, agentes da Secretaria Municipal de Ordem Pública chegaram à bienal por volta de 18h acompanhados de representantes Procuradoria Geral do Município. A chegada deles causou um furor e senso de justiça em muitos que estavam presentes no evento. A ideia então de uma manifestação contra a censura partiu de autores como Thalita Rebouças, Laurentino Gomes e Pedro Bandeira mas não ficou só na ideia, autores e leitores marcharam da Arena #SemFiltro até a entrada do Pavilhão Laranja, com gritos como: “Onde houver ódio que eu leve amor”, “Onde houver armas que eu leve livros”, “Não vai ter censura”. Se não fosse assustador precisar manifestar contra censura em pleno 2019, seria algo lindo de ver. Mais uma vez a união fez a força e venceu o preconceito.



A leitura sempre esteve associada à esperança. Em um país que é recorde em assassinato de homossexuais, censurar livros dessa temática é tirar a esperança de quem precisa. Mas o alvo não é só a comunidade LGBTQ+ e sim todos os brasileiros. Ninguém pode escolher o que lemos, ouvimos ou assistimos. Estão atacando a nossa liberdade e é por ela que devemos lutar.

A edição da Bienal Rio de 2019 resistiu como um abrigo democrático e apesar do evento se encerrar hoje, o que vivemos aqui resistirá para sempre em nossa memória. A lembrança de cada grito é um eco de esperança. O Livro salva, o livro cura, o livro resiste.

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