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13 Reasons Why – 4° Temporada | Crítica

13 junho 2020 0 Comentários

13 Reasons Why - 4° Temporada | Crítica

Uma das coisas que mencionei na minha crítica da terceira temporada de 13 Reasons Why era que não havia necessidade de uma quarta temporada e que se tivesse, contando que tivesse uma boa história, seria bem-vinda. Terminei de assistir a última temporada desta série da Netflix me perguntando várias vezes a necessidade de ter mais episódios, pois claramente a produção já mostrava um desgaste, porém, o último ano, apesar de ter diversos problemas, possui dois episódios que valeram a pena, coincidentemente são os dois que fecham a temporada, porém, a jornada para chegar  até ele é cheia de pedras, inconsistências e repetições, o que faz esta última temporada ser bastante irregular e ruim de uma forma geral.

Como já disse uma vez, se você ainda está assistindo a série pós segunda temporada, é porque se importa com os personagens e  seus desfechos, por isso permaneceu assistindo mesmo que a história não seja tão forte como um dia foi na primeira temporada. Esta última temporada é basicamente um “aftermath” ou “consequências” de tudo aquilo que aconteceu na temporada passada, a morte de Bryce Walker (Justin Prentice) e Monty (Timothy Granaderos), fez com que Clay (Dylan Minette) e seus amigos se protegessem e ficassem mais próximos do que nunca, afinal a morte do primeiro foi causada por dois membros do grupo e com a morte do segundo, tudo foi manipulado para que Monty levasse a culpa e com isso encerrar as suspeitas em cima da morte de Bryce.

A trama parecia bem fechadinha, mas a quarta temporada traz tudo à tona de novo. Com um fiapo de trama, a série transforma esse último ano em um thriller psicológico pesado abordando doença mental, depressão e ansiedade centrado na figura de Clay, normalmente alçado a “herói” e pessoa justa, aqui o personagem é descontruído de tal forma se tornar mais humano e cheio de falhas. Todo o arco inicial da temporada é centrada em Clay, porém abre espaço para acompanhar também a jornada de seus amigos, desta forma Alex (Miles Heizer), Justin (Brandon Flynn), Jessica (Alisha Boe), Ani (Grace Saif), Zach (Ross Butler), Tyler (Devin Druid), Tony (Christian Navarro) e Charlie (Tyler Barnhardt) tem seus pequenos arcos lidando com seus problemas e com as decisões que tomaram ao acobertarem o crime da última temporada, além dos desafios que precisam enfrentar com o período de formatura chegando.

Um ponto positivo aqui é que cada episódio tem algo que envolve algum rito de passagem que os personagens têm que lidar até chegar no dia da graduação no “high school” (o ensino médio deles). Desta forma o episódio inicial “Winter Break” (4×01) se passa durante as férias de final de ano e traz Clay tendo crises de ansiedade, Justin voltando da reabilitação e Tyler indo depor na polícia, trazendo à tona novamente o plot  sobre as armas que o mesmo jogou no lago no final da temporada anterior.

O roteiro sofre para se organizar em algo que tenha progressão e que gere conflito, ao colocar os dramas mentais de Clay em primeiro plano e a subtrama com o trio novato Winston (ficante de Monty), Estella (irmã de Monty) e Diego (inserido para ser um dos atletas recorrentes da história) no pano de fundo, a história ganha em suspense, mas fica travada no desenvolvimento e episódios como “College Tour” (4×02) e “Valentine’s Day” (4×03) por mais bem intencionados que sejam, parecem andar em círculos com os mesmos problemas de sempre com uma forte sensação de deja vu.

13 Reasons Why - 4° Temporada | Crítica

À medida que a narrativa vai progredindo, novas peças vão sendo inseridas, a opção por um tom mais sombrio como drama psicológico, tende a deixar a trama menos previsível. O espectador fica questionando a todo momento se tudo aquilo que o Clay está vivendo é real ou não. O ápice é no desfecho do baile do dia dos namorados mostrando que Clay realmente está sofrendo de um distúrbio mental sério. Se por um lado a narrativa fica menos previsível, por outro ela peca por não conseguir o mesmo êxito na trama envolvendo Winston (Deaken Bluman) e seus aliados, obcecados por descobrir a verdade sobre as mortes de Bryce e Monty. A trama mostra muitos furos e a motivação dos personagens é muito rasa, principalmente de Winston, que na temporada passada foi violentamente espancado por Monty e agora quer buscar injustiça para ele (oi?), e tudo fica ainda pior com Diego (Jan Luis Castellanos), que foi inserido nesta temporada e mostra uma devoção fora do comum para com Bryce, tornando tudo muito implausível.

Citei que um dos problemas das temporadas anteriores, era o fato de ter 13 episódios, tudo era muito maçante e perdia fôlego rápido normalmente no meio dela. Esta última temporada tem 10 episódios, três a menos, mas infelizmente fez pouca diferença, porque os episódios continuaram sendo grandes em duração, com uma média de 56 minutos cada, ainda tornam tudo muito arrastado, mas dessa vez acentuado por uma falta de desenvolvimento do roteiro em preencher lacunas com boas histórias.

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Apesar da instabilidade e de algumas repetições, a temporada ganha fôlego com no episódio “Senior Camping Trip” (4×04), que apesar de ter seus defeitos, insere uma peça chave que vai gerar revelações nos posteriores. Na primeira parte da temporada a história tem poucos ganchos, porém a construção do episódio “House Party” (4×05) gera um cliffhanger interessante envolvendo Clay e Zach, mas infelizmente ele é mal desenvolvido no episódio seguinte mostrando que a série perde boas oportunidades de gerar dramas e conflitos mais consistentes.

A verdade é que 13 Reasons Why erra quando pesa a mão no drama psicológico e erra novamente quando trata temáticas importantes de forma superficial, algo que a série sempre foi criticada ao longo de suas quatro temporadas. Por outro lado, quando acerta, consegue gerar tensões e cenas intensas, como todo caos criado no episódio “Thursday” (4×06), que apesar de iniciar de uma forma corriqueira, se revela no decorrer da narrativa uma crítica pesada a forma como as escolas norte americanas lidam com a questão os protocolos e simulações em casos de tiroteios. O episódio tem um impacto forte em Clay e seus amigos, que já viveram tragédias até demais em suas vidas, mas aqui elas se multiplicam num cadeirão de emoções que gera momentos de emoção a flor da pele para personagens como Jessica, Zach e Alex.

Os temas abordados nesta temporada como havia dito, vão de doenças mentais, passando por depressão, além dos já abordados como dependência química, ansiedade, ataques de pânico, sexualidade, dentre outros presentes na vida do adolescente moderno, podemos acrescentar também preconceito e racismo através do abuso policial como fica evidenciado no caótico episódio “Acceptance/Rejection” (4×08), coincidentemente algo que remete ao recente e trágico caso de George Floyd nos EUA. Cada personagem tenta lidar com seus próprios demônios nesta temporada, mas o roteiro inverte a trama ao mostrar Clay, o amigo que apoia a todos, numa situação em que ao precisa de ajuda, porém acaba não sendo compreendido e ignorado pela maioria de seus amigos.

Durante grande parte dos episódios vemos o psicólogo doutor Robert Ellman (Gary Sinise) tentando fazer com Clay compreenda seus próprios problemas e melhore mentalmente, é uma parte positiva da série, mostrando que ajuda médica é uma parte crucial para a melhora de uma pessoa que enfrenta esses tipos de problemas psicológicos.

Citei bastante Clay porque o personagem toma boa parte do tempo de tela da série neste último ano e Dylan Minette consegue segurar e realizar bem suas cenas dramáticas, mais à vontade no papel o ator dá um show de atuação em sequências bastante difíceis, ainda que o roteiro insista as vezes em exagerar os surtos psicóticos do personagem. O resto do elenco não faz feio, podemos separar alguns destaques aqui, como Miles Heizer no papel de Alex, um personagem que é muito mais explorado nesta temporada com o despertar de sua sexualidade e se envolvimento com personagens como Winston e Charlie, o envolvimento com este último gerou cenas bastante tocantes inclusive.

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Outra personagem que merece destaque é Jessica vivida por Alisha Boe, que na primeira metade é pouco explorada, mas ganha cenas importantes na segunda metade gerando boas sequências, mostrando uma personagem atormentada pelos erros do passado, porém forte e incapaz de se deixar abater quando o segredo sobre ela e seus amigos esta perto de ser revelada.

Personagens como Tyler e Ani tem pouco tempo de tela em relação a temporada anterior em que foram o centro das atenções, porém são peças importantes dentro da trama e ganham desfechos merecidos. Zach é um personagem que sofre muito nesta temporada, seu arco é o mais isolado do resto do grupo e é o que talvez tenha carecido de mais desenvolvimento, apesar do desfecho promissor. Tony é um personagem que tem o futuro mais interessante dentre seus colegas, tanto que no episódio “College Interview” (4×07) mostra a relutância do mesmo em abraçar uma proposta promissora para lutar como boxeador representando a Universidade de Nevada.

De todos esses personagens citados, o que teve o arco mais dramático, tirando o Clay é claro, foi Justin, de longe o personagem que passou por vários altos e baixos durantes todas essas temporadas e que aqui ganha o desfecho mais triste e emocionante, não só porque impacta a vida de seus amigos de uma forma definitiva, mas também para mostrar que a vida é feita de escolhas e essas escolhas tem consequências, e que as vezes elas podem ser sem volta. A atuação muito boa de Brando Flynn, torna o desfecho da jornada de Justin algo marcante e que dificilmente saíra da mente dos fãs da série tamanha entrega nos quarenta minutos iniciais do series finale.

Os dois últimos episódios são os melhores da temporada como havia dito, a jornada até o episódio oito, foi bastante tortuosa e muitos arcos pareciam não se sustentar, então o episódio “Prom” (4×09) vem para limpar a aura sombria dos episódios anteriores, injetando luz, jovialidade e esperança. O episódio do baile de formatura tem tudo que um drama jovem precisa, música, rei e rainha do baile (ou seria rei e rei, ou rainha e rainha), amizades e romance. Todos os personagens ganham seu momento de felicidade, todos, é bonito, bem conduzido e tudo que se espera de um drama adolescente como este, principalmente por conta de todas as tragédias que passaram, este momento de felicidade serve como um belo escapismo. Talvez a única ressalva aqui seja o desfecho da trama de Winston envolvendo o mistério envolta da morte de Bryce, que já havia perdido força no decorrer da temporada e aqui ganha um ponto final clichê e sem muita inspiração.

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O último episódio denominado “Graduation” (4×08) é quase um filme, com quase uma hora e trinta oito minutos, se divide duas partes bem definido focando primeiramente no desfecho trágico de um personagem trazendo momentos tristes e lacrimosos. Enquanto a segunda parte é mais focada em fechar lacunas, fazer homenagens, trazer um pouco de nostalgia enquanto prepara seus personagens para à vida adulta, tudo feito de uma forma bastante satisfatória e sem polêmicas.

De uma forma geral, 13 Reasons Why termina sua jornada de uma forma melancólica, porém positiva, este último ano está longe de ser um primor narrativo, mas ao menos tem alguns bons momentos que valem a pena para quem acompanhou a série até aqui. O seriado tem muitos defeitos, principalmente a forma como trata certos assuntos mais delicados, mas posso dizer que é um seriado que aprende com os erros ao colocar mais alertas e abrir mais discussões sobre assuntos relevantes que ainda são tabu e que poucas vezes são tratados em seriados jovens. A quarta temporada peca por não ser menor e por esticar demais arcos que não tem mais o que render, mas felizmente, consegue ao menos dar um desfecho digno para seus personagens, muito deles difíceis de não se apegar, que muitas vezes são questionados por suas índoles e ações, porém são constantemente lembrados que são adolescentes, com defeitos e qualidades, e que precisam buscar ajuda e compartilhar o que sentem, seja com adultos, educadores ou com médicos especializados, pois afinal o diálogo ainda é o caminho mais seguro para passar por um das fases mais turbulentas da vida. É bom saber que Clay, Jessica, Alex, Zach, Ani, Tyler, Tony, Charlie e todos os outros terão suas chances de amadurecer e finalmente seguir em frente. Eles e nós também.

 

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