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2020: Japão Submerso | Crítica

18 julho 2020 0 Comentários

2020 Japão Submerso

Existe uma lenda antiga no Japão que diz que o país sofreria um desastre natural através de um terremoto e seria destruído no processo. A grande referência ao desastre seria o Monte Fuji, que por muito tempo adormecido, entraria em erupção indicando o fim da civilização japonesa como conhecemos. Esta história foi transformada em livro pelo autor japonês Sakyo Komatsu em 1973, o autor demorou quase dez anos para concluir a obra intitulada “Japão Submerso” que se tornou um fenômeno de venda na época e ganhou vários prêmios.

No ano de 2019, a empresa de animação ONA adquiriu os direitos de adaptação em forma de anime que foi anunciada para outubro daquele mesmo ano. O anime foi nomeado de “2020: Japão Submerso”, foi animado pelo estúdio “Science Saru” criado por Masaaki Yuasa (Devilman Crybaby) que também dirigiu a obra que por sua vez foi distribuída internacionalmente pela Netflix sendo exibida no último dia 9 de julho de 2020 contendo dez episódios.

A história desse anime não é usual, ela começa logo após as olimpíadas de Tóquio 2020 quando um forte terremoto atinge todo o Japão. Em meio a esse caos, acompanhamos a jornada da família Muto, que tenta a qualquer custo se encontrar com os membros espalhados pela cidade de Tóquio. O primeiro episódio “O Começo do Fim” (1×01) é bastante eficiente em situar o expectador, não poupando a violência gráfica, sangue e imagens chocantes, mostrando uma urgência na narrativa enquanto acompanhamos Ayumu Muto, seu pai japonês Kiroichi Muto e sua  mãe filipina Mari Muto, tentando escapar das tragédias que aparecem em seus caminhos na busca de voltar para casa e encontrar o irmão dela, o pequeno Go Muto.

2020 Japão Submerso

“2020: Japão Submerso” não é um anime para crianças, a censura alta de 18 anos é justificável, porque a trama tem foco bastante realista ao mostrar Tóquio praticamente implodindo e corpos caindo do céu aos montes. O choque inicial só dá lugar a mais tensão nos dois episódios seguintes, em “Adeus, Tóquio” (1×02) acompanhamos a família Muto se juntando a um grupo maior na tentativa de chegar num local seguro longe de toda a destruição. A narrativa mesmo sendo urgente, consegue envolver quem assiste, você se apega rápido a esses desconhecidos que vão ganhando rostos e nomes. Além da família Muto, temos a jovem Nanami Miura e o quieto Haruo Koga como destaque aqui.

Nesta jornada, o anime não poupa o expectador em meio à destruição, os três primeiros episódios são marcados por conflitos familiares, muita correria e muitas mortes de personagens que acabamos de nos apegar, como pode ser visto no segundo episódio e no terceiro denominado “Nova Esperança” (1×03). O roteiro perde um pouco por não dar tantos respiros no começo, mas ainda assim é rico em referências culturais que acabam por se tornar o cerne do anime, onde se vê que além de lidar com a trama de sobrevivência, temos também que lidar com conflitos entre personagens de diferentes nacionalidades neste Japão moderno, que se mostra bastante globalizado, mas que ainda tenta se manter de uma forma conservadora a suas antigas tradições. É um embate constante durante o decorrer dos episódios, aqui representado pela figura moderna do aventureiro da Estônia, Kite, e do pequeno Go Muto.

A verdade é que o apelo emocional desse anime é muito grande, com todas as tragédias humanas acontecendo com esses personagens, você acaba se apegando bem rápido a todos eles, até mesmo ao velho rabugento Kunio Hikita. O sentimento de perda acompanha muito os personagens e muitos não sabem lidar com isto, Ayumu é um forte exemplo disso, talvez a personagem com mais conflitos internos envolvendo culpa e arrependimento, escancarado por mortes recentes que a jovem corredora não consegue lidar, ao contrário de sua mãe e os sobreviventes do grupo, que parecem não intencionalmente se importar, apenas seguindo em frente numa jornada pelas regiões montanhosas do Japão próximas ao Monte Fuji.

Nos episódios “Uma Porta Aberta” (1×04) e “Ilusão” (1×05), as tragédias continuam a acontecer, mas a narrativa começa a desacelerar, saindo um pouco do tom urgente imposto pelo desastre natural, entrando num território mais calmo, na falsa sensação de abrigo e segurança quando o grupo chega a uma comunidade na cidade de Shan. A trama começa a oscilar neste ponto, que apesar de ainda desenvolver bem os conflitos dos personagens, parece sair um pouco do foco, porém este respiro ao meu ver dá exatamente o que a história precisa, uma oportunidade de mostrar o senso coletivo dessas pessoas, reforçar laços e uma forma que o roteiro encontra de colocar estes sobreviventes para lidar com seus próprios demônios e fraquezas.

Anime 2020 Japão Submerso

Em “Previsões” (1×06) tudo isso fica muito evidente, quando a líder da comunidade de Shan, que é médium, mostra que há uma linha muito tênue entre este e outro lado da vida, que não se pode viver em negação todo tempo. Uma hora a verdade e até mesmo o luto chega à tona para todos, como fica claro para Ayumu, Mari e Kunio, personagens que lidam de formas diferentes com suas perdas, vícios e segredos, mas que ainda assim tentam se libertar de suas prisões internas. A primeira lida com isso se auto punindo, deixando de compartilhar a dor que sente por causa de uma ferida na perna, a segunda tenta amenizar a dor transformando bons momentos em lembranças permanentes sempre tirando foto do grupo em lugares onde passam e o terceiro é atormentado pelas escolhas do passado, usa morfina para aliviar a dor e acaba se apegando a desconhecidos que não representam o Japão antigo e tradicional que tanto amava.

A melancolia narrativa imposta por “2020: Japão Submerso” é algo que nos acompanha nesta jornada e não nos deixa em nenhum momento. A todo instante você se pega preocupado com o que pode acontecer com estes personagens, um sentimento constantemente acentuado pelas imagens contemplativas, os traços rebuscados dos desenhos que transitam entre a beleza e a deformação ressaltando exatamente a imperfeição humana, que dão um tom sóbrio às paletas de cores e que ao mesmo tempo podem ser assustadoras e tenebrosas, por mostrarem imagens chocantes, mas que por outro lado mostram uma paisagem bela de um Japão que está sendo destruído pouco a pouco diante de nossos olhos.

Existe uma poesia triste por trás das constantes dores que sentimos a cada nova morte que se apresenta em tela, ressaltado por um constante sentimento de seguir em frente, como se a mão do destino não nos deixasse parar para absorver o luto. Na reta final desta minissérie e a retomada da jornada de sobrevivência após a breve passagem pela comunidade de Shan, a narrativa retoma o vigor urgente estabelecido no começo e mergulha ainda mais na destruição do país nipônico como conhecemos. Em “O Amanhecer” (1×07) e “O Segredo de Mamãe” (1×08), o roteiro ganha um objetivo através das informações do doutor Onoreda, pesquisador que previu o desastre vigente e que mesmo agora paraplégico, se mostra crucial para dar ao grupo de sobreviventes uma chance de sair vivo deste desastre e tudo transmitido através de código morse.

A narrativa reforça bastante, principalmente para Ayumu e Go, que eles só irão sobreviver se permanecerem juntos e isso fica claro quando os personagens passam um tempo sozinhos perdidos no mar. A verdade é que o anime reforça muito esse tipo de senso coletivo, esta base da civilização japonesa inclusive é crucial para superarem a destruição do país, porém isso nem sempre quer dizer algo bom, a trama consegue trazer a tona temáticas pertinentes sobre tecnologia, globalização, racismo, preconceito dentre outros através das constantes pessoas e grupos que a família e seus amigos encontram pelo caminho, isso nos faz questionar muito sobre a perda de humanidade representado por certos grupos étnicos em momentos extremos e como isso contribui para piorar a situação  durante este desastre de grandes proporções.

Japan Sinks 2020

Se nos primeiros oito episódios, o anime foca no fim de uma civilização, os dois últimos episódios começam a construir um sentimento de esperança, ainda que venha acompanhado de algumas reviravoltas e choques característicos da trama. No episódio “Japão Afunda” (1×09), o roteiro começa a traçar o fim da jornada desses personagens, ao mesmo tempo que prepara o expectador para um desfecho. O episódio que fecha a minissérie, o belo e inspirador “Ressureição” (1×10) deixa o pessimismo de lado e insere um pouco de positividade na trama através da nostalgia e um olhar mais esperançoso para os personagens que sobreviveram.

A lenda que conta sobre o fim da civilização japonesa, também fala sobre renascimento dele depois de um determinado tempo. É um ciclo de renovação, assim como na vida, o anime insere a ideia de que a transformação mostrada ao longo desta trama tem um propósito e esse se dá em um recomeço. Em termos narrativos, “2020: Japão Submerso” se mostra um anime intenso, caótico, conflituoso, extremo, triste, melancólico, belo e extremamente bem conduzido, ainda que tenha uma leve oscilação na sua metade. A história é um deleite para os fãs de anime com um tom mais poético, mas é preciso ter estômago para encarar a jornada da família Muto e seus amigos, porém a jornada com certeza vale a pena reforçando que a base da civilização humana ainda se dá através da relações que nos ligam e nos dão um propósito.

 

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