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A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes | Resenha

13 novembro 2020 0 Comentários

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes | Crítica

No dia 4 de outubro de 2019, a internet literalmente parou com o anúncio do título e da capa do novo livro de Suzanne CollinsA Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, baseado no universo da trilogia Jogos Vorazes. A verdade é que boa parte da internet também ficou dividida quanto ao anúncio, ainda mais com os detalhes da sinopse revelados, mostrando que a história iria se passar antes da saga de Katniss Everdeen e seria focada no vilão da história, o cruel e tirano Coriolanus Snow. Eu mesmo fiquei muito na dúvida se leria ou não este livro, porque Snow era praticamente um ditador e qualquer tentativa de humanizar sua história, seria algo impensável para maioria dos fãs dos livros.

Corta para 2020, no dia 19 de maio, no meio da primeira onda da pandemia, fomos agraciados com o lançamento de The Ballad of Songbirds and Snakes” no original, que seria traduzido aqui no Brasil como A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (ainda não consigo engolir essa tradução). Confesso que demorei um tempo para começar, na verdade eu terminei minha leitura a poucos dias e fiquei durante um tempo tentando absorver tudo que li e se realmente gostei do desfecho da história.

A sinopse do livro conta a história do jovem Coriolanus Snow, que se prepara para um momento decisivo de sua vida quando irá se tornar mentor na décima edição dos Jogos Vorazes, a única porta de entrada para que possa cursar uma faculdade decente e assim conseguir manter o nome da família Snow. A primeira coisa que você precisa saber é que este livro de Suzanne Collins é bastante político, é claro que possui drama e ação no decorrer da trama, mas o fato da história se passar pelo ponto de vista do Snow, podemos ver aqui os bastidores dos jogos e como as autoridades de Panem lidam com este evento, deixa a trama bastante politizada e isso pode causar uma certa decepção em que vai ler procurando apenas a parte dos Jogos Vorazes.

As primeiras partes do livro, Collins consegue situar bem a época em que se passa a história, a décima terceira colônia não existe mais, a guerra assolou Panem criando um clima de instabilidade entre Capital e os distritos, porém a única coisa que serve como alento é a realização dos Jogos Vorazes. Tudo aqui é interessante, conhecemos a família de Snow que vive com sua vó e sua prima Tigris num apartamento na Capital, conhecemos sua vida na academia de preparação e seus amigos, além de que fica claro que sua personalidade não muda, mas ganha uma nova vertente, pois sua versão jovem ainda não se tornou aquele ser detestável e cruel que um dia iremos conhecer.

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O livro passa muito tempo focando nas perspectivas e ambições de Snow e mostrando o ambiente em que ele vive na Capital, cheio de intrigas, ambição e poder por todos os lados, tudo isso amplificado no período dos Jogos Vorazes. Por ser uma “prequel”, uma história que passa no passado, temos aqui a oportunidade de vermos Panem em seus tempos mais remotos, a Capital está menos luxuosa, mas continua sugando tudo dos distritos, as células rebeldes continuam atacando de forma imprevisível sempre que possível e podemos perceber o quão precário são os Jogos Vorazes em seus anos iniciais.

A narrativa sabe envolver os expectadores porque Suzanne Collins sabe muito bem desenvolver suas histórias, ainda que no começo o contexto demore a ganhar ritmo e chegar nos jogos, a autora consegue manter a atenção do leitor trazendo peculiaridades sobre Snow, peculiaridades sobre o jogo político, além de apresentar novos personagens que acabam por chamar bastante a atenção.

A narrativa não foca somente na história de Coriolanus Snow, apesar do personagem ser o cerne e a trama se passar sobre seu ponto de vista, tudo ganha um contorno mais amplo quando conhecemos personagens como: Sejanus Plinth e Clemensia (amigos de Snow), o rigoroso e ardiloso Reitor Highbottom, a inteligente e cruel Dr. Gaul, responsável pelos jogos daquele ano e é claro, a linda, doce e perigosa Lucy Gray Baird, uma tributa do distrito 12 que ganha o coração de Coriolanus.

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O livro é muito carregado na politicagem na primeira parte, mas Collins sabe acelerar a trama quando quer, acrescentando bons ganchos entre os capítulos para deixar a história aquecida e interessante. O que notei de diferente, é que o clima de tensão da trilogia original, aqui ganha contornos mais intensos, não só porque enxergamos tudo acontecer de uma posição mais privilegiada, mas porque a situação entre Capital e distritos é ainda mais complicada, tudo isso evidenciado pelos jogos e pelos constantes ataques terroristas dos rebeldes.

O fato de enxergamos a narrativa de cima para baixo e não debaixo para cima, podemos notar como os ricos enxergam a luta de classe e como enxergam as pessoas que vivem nos distritos, é possível perceber um preconceito embutido evidenciando uma visão bem elitista de uma sociedade apodrecida e que vive de aparências. Tudo isso é representado inclusive pela maneira de pensar de Snow, que por mais que tenha um passado trágico relacionado a guerra que ocorreu antes, prova ser um arrogante no meio de outros arrogantes.

O livro é literalmente uma luta de poder e ambição constantes, onde os personagens são desafiados o tempo todo em manter ou não sua índole para atingir seus objetivos. Collins em determinados momentos consegue desconstruir a maioria de seus personagens tornando impossível que o leitor rotule mocinhos e vilões de imediato, trazendo uma complexidade bem vinda colocando-os no limite os fazendo questionar até mesmo suas próprias índoles em determinados momentos.

É claro que A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes não esquece os Jogos Vorazes, aqui a competição chega no meio da história, mais cruel, implacável e  impiedoso do que nunca, mas ao se passar pelo ponto de vista dos mentores, vemos aqui algo diferente do que experimentamos com Katniss literalmente dentro da arena. É claro que o fato da competição não ser descrita por dentro, perde um pouco de impacto, mas acredito que ainda assim acompanhar os tributos se degladiando para vencer a competição do lado de fora, traz muitas outras vertentes, como os mentores tentando se empenhar para ajuda-los e como Dr. Gaul consegue manipular bem a competição da Cidadela.

A tacada de mestre aqui, é que Collins antes de partir para competição, consegue construir um romance entre Coriolanus Snow e a jovem Lucy Gray, fazendo com que o leitor literalmente torça para que os dois vençam os jogos, assim a narrativa ganha em emoção, tensão e expectativa para sabermos como tudo vai se desenrolar. O livro vai além de tudo isso, apesar dos Jogos não estarem presentes no livro inteiro, a narrativa tem fôlego suficiente para sobreviver sem a competição, é neste ponto que várias curiosidades sobre a concepção dos jogos, a história da capital e os constantes conflitos ajudam a encorpar a história, sem falar que Suzanne não se priva de mostrar o quão desumana a Capital pode ser com as pessoas dos distritos, os tratando quase como animais em determinados momentos.

É claro que as vezes a narrativa demora um pouco para sair do lugar, mas de uma forma geral, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes consegue prender a atenção do leitor até o fim. De uma forma geral, o livro vale cada segundo se você gostar mesmo deste universo, a história ainda é regada de muitas canções, além de ser uma análise bastante satisfatória da mente humana e como as escolhas e decisões que tomamos podem moldar o que vamos ver, seja para o lado bom, ou lado ruim. Acredito que ao contar a história de Snow, Suzanne Collins traz um drama denso, melancólico e por muitas vezes pesado, mas que não se priva em mostrar que no universo de Panem, a linha tênue entre o bem e o mal andam sempre próximas, e o que vai determinar em qual lado da linha você vai andar, é você mesmo.

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