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A Maldição da Mansão Bly – 1° Temporada | Crítica

12 outubro 2020 0 Comentários

A Maldição da Mansão Bly – 1° Temporada | Crítica

“Não é uma história de fantasmas, mas uma história de amor”, pode parecer piegas, mas esta frase dita em um algum momento deste seriado define muito o que foi assistir a esta temporada de “A Maldição da Mansão Bly”, segunda temporada da antologia criada por Mike Flanagan que chega após um enorme sucesso com “A Maldição da Residência Hill” na plataforma da Netflix, apostando na lenda inglesa da maldição da mulher do lago trazendo alguns nomes conhecidos de “Residência Hill” e novos talentosos atores para uma narrativa repleta de sustos, romances e dramas.

A série estreou no último dia 9 cercada de expectativas, ainda mais depois da aclamação da última temporada, pesava ali a responsabilidade de manter a qualidade no texto e nos sustos que atraíram o público inicialmente. Depois de assistir aos nove episódios de “A Maldição da Mansão Bly”, posso dizer que a série cumpre quase todas as expectativas e que mais uma vez Mike Flanagan entrega uma obra única, cheia de nuances e boas reviravoltas que segue um caminho inesperado, mas não menos impactante.

É bom deixar claro que esta nova narrativa não se baseia só em sustos, então talvez possa soar como decepção para parte do público que vai assistir com esse intuito. Veja bem, “Mansão Bly” ainda tem muitas cenas assustadoras, mas ao contrário da sua antecessora que tinha diversos “jump scares”, esta temporada cria seu clima sobrenatural aos poucos, numa escalada que prepara o terreno para expectador se envolver no terror e na atmosfera sendo moldada, isto não deixa a série chata, mas a torna imprevisível, pois a paranoia de saber de onde virá a próxima aparição fantasmagórica tende a mexer com a nossa ansiedade enquanto o roteiro preenche as lacunas com a história dos personagens.

A Maldição da Mansão Bly – 1° Temporada | Crítica

A premissa de “A Maldição da Mansão Bly” conta a história de Dani Clayton (Victoria Pedretti), uma jovem norte americana que é contratada por Henry Wingrave (Henry Thomas), um influente advogado, para ser babá de seus sobrinhos órfãos, Flora (Amelie Bea Smith) e Miles (Benjamin Evan Ainsworth) que residem na mansão Bly no interior da Inglaterra. A narrativa é baseada na obra do Henry James, “A Outra Volta do Parafuso” que conta a história dessa governanta inglesa em uma mansão para cuidar de duas crianças, descobrindo que as mesmas estão sendo assombradas por fantasmas de dois empregados.

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Mesmo se baseando em uma obra, Mike Flanagan consegue criar algo bastante único e diferente, criando um conto de terror com uma mitologia que cresce a cada episódio. Em “The Great Good Place” (1×01) o expectador percebe de imediato que esta diante de algo bastante peculiar, quando somos apresentados a Dani, uma jovem professora que parece estar se recuperando de um trauma do passado e que acaba usando a vaga de emprego de babá na mansão Bly como uma espécie de válvula de escape.

O roteiro prende bastante nossa atenção mostrando personagens imperfeitos numa história que sobrenatural contada pelo ponto de vista de uma narradora misteriosa (Carla Gugino) que vai moldando em palavras o cenário que iremos encontrar pela frente. A parte técnica do seriado é bastante crucial aqui, a fotografia mais morosa salpicada por uma atmosfera  que mistura locais mais claros e enevoados na parte externa da mansão, com locais mais escuros e inquietantes na parte interna da residência, tudo isso amplificado por um design magnifico de construção que tem uma arquitetura inglesa vitoriana que dá todo um charme e um ar sobrenatural para o lugar, simplesmente um deleite para os olhos.

A Maldição da Mansão Bly – 1° Temporada | Crítica

O gancho do primeiro episódio, dá o tom que a série irá seguir, sempre mostrando que tem algo estranho naquela residência e com aquelas crianças. O senso de paranoia aumenta em “The Pupil” (1×02) quando Dani começa a perceber que o lugar não é aquilo que ela imagina, em paralelo aos acontecimentos do presente começamos a mergulhar na história do passado do pequeno Miles que revela ainda mais anormalidades mostrando que esses personagens não são tão inocentes quanto parecem.

Um dos maiores méritos de “A Maldição da Mansão Bly” é saber se desenvolver como história de terror, mas sem deixar de oferecer uma complexidade aos seus personagens sejam eles vivos ou mortos. Além dos órfãos, a mansão ainda conta com uma governanta, senhora Hannah Rose (T’Nia Miller), um cozinheiro, Owen (Rahul Kohli) e uma jardineira, Jamie (Amelia Eve), personagens que aos poucos se mostram importantes dentro da narrativa. Em “The Two Faces, Part One” (1×03) o véu do sobrenatural fica cada vez mais fino quando mergulhamos no passado do casal Peter Quint (Olivier Jackson-Cohen) e Rebecca Jessel (Tahirah Sharif) e assim vemos que o seriado não se define apenas como terror, mas como drama com toques de romance.

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Essa transição entre gêneros, mostra que a série não se limita em uma só vertente, abrindo espaço para focar em temáticas pertinentes que trazem à tona diversas discussões pertinentes. Em “The Way It Come” (1×04) a série aborda traumas do passado e culpa em um drama que traz a toma um terror psicológico bastante tenso envolvendo a personagem Dani, já em “The Jolie Corner” (1×06) temos Henry lidando não só com a culpa, mas com os próprios demônios em outra trama que vai além do terror e do suspense.

A Maldição da Mansão Bly – 1° Temporada | Crítica

Ao mesmo tempo em que aborda alguns temas pertinentes, o roteiro de cada episódio tenta se aprofundar a cada nova revelação, a cada novo mistério, a cada nova aparição de um fantasma que assombra a residência de Bly, que como um quebra cabeça não muito complexo, vai encaixando pedaço por pedaço para moldar a história desses personagens trágicos. A série se eleva quando tenta sair fora da curva, no brilhante “The Altar of the Dead” (1×05), quando o passado da governanta Hannah Rose vem a tona trazendo chocantes revelações numa trama melancólica que mistura vazio existencial e o medo do esquecimento, nos vemos assim diante de um seriado que tenta a todo momento mostrar que vivemos numa linha tênue entre a vida e a morte, e que tudo é questão de percepção.

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Em sua reta final, “A Maldição da Mansão Bly” abre espaço para reviravoltas e pavimenta o caminho para seus melhores episódios até então. Se aqui a trama tinha usado o drama e o terror como catalisador das várias tragédias pessoais que permeiam a narrativa, tudo isso é amplificado numa espécie de tragédia grega numa montanha russa de emoções em episódios como “The Two Faces, Part Two” (1×07) marcados por ganchos excelentes capazes de deixar o expectador tenso e na beira do assento.

É claro que ao colocar o drama no centro e o terror no plano de fundo (e invertendo quando necessário) para tecer esta história, Mike Flanagan e seus roteiristas acabam por criar uma narrativa mais lenta e cadenciada (o que pode irritar os expectadores que preferem algo mais urgente), com um ritmo que oscila um pouco no começo, mas se mostra extremamente envolvente na reta final, quando a escrita se revela rica em diálogos excelentes e eficiente em montar um quebra cabeça muito bem costurado do primeiro ao último episódio, ou seja, toda a construção aqui é compensada com ótimos desfechos na conclusão da história.

De uma forma geral, as comparações com “A Maldição na Residência Hill” são inevitáveis, apesar de serem obras do mesmo autor, ambas são completamente distintas e se você conseguir compreender isso, vai conseguir apreciar as duas com a mesma intensidade. Em “A Maldição da Mansão Bly”, o expectador é convidado acompanhar um drama com toques de terror, mas acaba recebendo uma história de romance trágica salpicada com um mistério fantasmagórico bastante envolvente. Aliás, o roteiro abre mão dos sustos fáceis para fazer você se emocionar numa das melhores histórias de origem já criadas para uma figura fantasmagórica no excelente “The Romance of Certain Old Clothes” (1×08).

Portanto o seriado consegue surpreender, não pela tensão criada (ela é menor, mas se mostra bastante constante durante a temporada), mas por saber desenvolver bem seus personagens e sua mitologia, a direção na maioria dos episódios se mostra inventiva e muito bem executava, apoiada em ótimas atuações de todo o elenco e uma qualidade de produção bem impecável. No último episódio da temporada, “The Beast In The Jungle” (1×09) o texto traz reflexões novamente sobre  lembranças e o vazio do esquecimento, revelando que “Mansão Bly” é também uma história sobre a perda da humanidade, sobre o apego a vida e sobre fazer sacrifícios para salvar aqueles que ama. Então é sim uma história de amor, mas não só sobre amor tradicional, mas sobre as várias aspectos do amor, que aqui transitam entre dois mundos, um físico e um espiritual, mas que no final das contas se resumem entre o amor excessivo e o amor eterno, aquele que permanece mesmo após o final da vida.

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