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Animal Crossing: New Horizons | A vida pacata em minha pequena ilha de isolamento

28 maio 2020 0 Comentários

animal crossing

A experiência do isolamento social tem impactado as pessoas de maneiras estranhas e diversas, mas não há dúvidas que para todo mundo alguns dias vão ser mais difíceis que outros. Hoje, por exemplo, eu fiquei quase meia hora deitado entre os lençóis, olhando para o teto sem ter plano nenhum do que fazer quando a quarentena acabar, porque quando a quarentena acaba? Está todo mundo mal. E eu nem gosto de sair de casa, mas até eu já estou de saco cheio da minha mesma cara todo dia no espelho do corredor. A vida se torna muito esquisita quando o excesso deixa insuportável mesmo as coisas que você mais gosta (eu nunca quis muito sair de casa antes, mas, agora, só porque eu não posso, pode ter certeza que eu adoraria). Essa é a consequência mais óbvia da pandemia, mas, para este texto, não é a que mais importa, o que mais importa é que está todo mundo trancada dentro de casa, tentando descobrir como viver de outros jeitos: seja lendo outros livros, seja maratonando outras séries, seja aprendendo um novo idioma, seja, como eu, simulando a vida ao ar livre com jogos de videogames. Este texto é sobre isto: eu preciso falar sobre essas últimas semanas de isolamento e tudo que aprendi com Animal Crossing: New Horizons.

O novo título da famosa franquia de farming da Nintendo demorou mais ou menos oito anos para chegar às nossas mãos, mas, aparentemente, não poderia ter vindo em melhor época. Animal Crossing: New Horizons (doravante ACNH), com sua jogabilidade casual, focada na vida comum e na interação cotidiana, foi se tornando cada vez mais popular à medida que as crises de sociabilidade se agravavam ao longo do isolamento.

Em ACNH, você tem que cuidar de uma ilha paradisíaca, pescar, plantar e colher suas frutinhas, regar suas flores e procurar uma variedade absurda de borboletas e outros insetos. O jogo não tem bem uma história, mas você cansou da vida na cidade grande e comprou um pacote de mudanças para uma ilha supostamente deserta e o cara que lhe vendeu o pacote é na verdade um guaxinim cujas intenções jamais ficarão de todo claras por mais que você avance no jogo.

Animal Crossing

Tom Nook parece simpático, mas sua política de juros exorbitantes vai lhe incomodando progressivamente ao longo do jogo, porque toda vez que você paga um empréstimo, cai uma dívida nova na sua conta e você vai ter que lutar e contar suas moedinhas por mais alguns dias.

O objetivo inicial do jogo é trabalhar para tornar a sua ilha interessante e atrair novos habitantes (existe uma variedade de quase 400 animais possíveis, mas cada ilha só pode abrigar no máximo dez, então recrute com sabedoria), assim, o K. K., um cachorro cantor famoso, vai visitar certo dia e fazer um acústico na praça principal da ilha.

A primeira vez que ouvi falar sobre Animal Crossing: New Horizons e toda a atenção que o mundo inteiro estava dando para o jogo, eu li um pouquinho a respeito e meio que me perguntei: está bom, mas é só isso?

Sim, é só isso. E é inacreditável o que o jogo consegue fazer com tão pouco. Os moradores têm personalidades diversas e você vai querer lidar com eles e combinar personalidades interessantes entre seus vizinhos, a aparência de sua ilha e das suas roupas são completamente customizáveis e as pessoas passam semanas e meses e nunca terminam de alterar tudo do jeito que querem, tem sempre alguma coisinha a mais para mexer. Tem um museu, para o qual você está sempre coletando novos espécimes, sejam fósseis, peixes ou insetos (e a variedade na sua ilha muda de acordo com a estação do ano e as estações do jogo mudam de acordo com as nossas estações na vida real, então, sim, a coisa pode se estender por meses sem fim). Tem uma loja de roupas, cujas coleções mudam todos os dias e você sempre vai querer experimentar coisas novas. E se o jogo não puder oferecer a roupa exata que você queria, você também pode desenhar roupas novas para o seu personagem e depois disponibilizar online para que outros jogadores experimentem também.

Animal Crossing

Na minha ilha, eu já cumpri pouco mais de cem horas de jogo e ainda não fiz muita coisa, mas tenho dado excessiva atenção aos meus dez moradores. A interação com os NPCs que moram em sua ilha pode sem dúvida ser caracterizada como um conjunto de ações isoladas que compõem os sintomas de uma grande esquizofrenia. Posso provar:

Prova 01) você se pega indo ao correio e escolhendo um papel de carta bonito (tem uma variedade bizarra e isso também muda de acordo com as datas comemorativas), aí você escreve uma mensagem bonitinha para um elefante azul que construiu a casa ao lado da sua. No dia seguinte, o elefante responde, e a carta dele não é qualquer coisa aleatória gerada por computador (óbvio que é, mas não me conta não), mas uma mensagem toda dentro de contexto, comentando os melhores trechos do que você escreveu para ele no dia anterior.

Prova 02) o gato com máscara japonesa vem encontrar você na porta da sua casa e lhe entrega um presente, e ele é adorável a respeito do presente e de como pensou em você quando viu na loja e como sempre soube que tinha que ser seu. Sendo que ele é só um bonequinho de pixels e você também é um bonequinho de pixels e mesmo assim está indo correndo na loja de roupas comprar alguma coisa cara para dar de volta para o maldito gato com cara de máscara japonesa (mas ele não é um maldito gato com cara de máscara japonesa, ele é seu amigo).

Prova 03) Este sou eu com minha camisa do Link, de Zelda. Sim, você passa tardes inteiras combinando suas roupas. Ao meu lado está Opal, ela morou por um tempo com a gente, mas depois decidiu que precisava conhecer outros lugares e foi embora. Ainda sentimos saudades, Opal.

Além de tudo que você pode fazer sozinho, me parece que o grande impacto social de Animal Crossing: New Horizons é o modo online. Você passa dias inteiros cuidado da sua ilha, mas qual seria a graça se ninguém pudesse ver? No modo online, você pode convidar outros jogadores e eles pegam um avião e chegam para uma visita. Em tempos de isolamento, a gente aceita qualquer migalha de interação que posamos receber. Às vezes, quando está tendo chuva de meteoros na sua ilha ou o Redd aparece para uma visita (Redd é um dos muitos NPCs do jogo, ele não pode se mudar para a sua ilha, mas, de vez em quando, ele vai ancorar o barco dele na sua praia para vender suas mercadorias de procedência duvidosa, ele vende obras de arte que podem ser originais ou falsificadas, como as obras são do mundo real, dá para saber quais são as falsas porque ele sempre vai mudar alguma coisa de forma absurda, tipo a Monalisa com a camiseta do U2), todo mundo quer dar uma passadinha por lá e você de repente se sente como o cara mais popular da escola, trocando cartinha de Pokémon no recreio.

No futuro, quando tudo isso acabar, nós vamos contar nossos mortos e nossas saudades e vamos sair na rua para viver a vida tudo de novo com a rotina e o esforço e vamos olhar para os dias de isolamento com nostalgia e ler de novo aqueles livros, ver de novo aqueles filmes, jogar de novo aqueles jogos. Para mim, Animal Crossing: New Horizons vai ser para sempre um pedaço bonito de tempos difíceis.

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