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As outras pessoas, de C. J. Tudor | Resenha

12 maio 2020 0 Comentários

as outras pessoas, de c.j. Tudor

Publicado pela editora Intrínseca, As outras pessoas é a terceira obra da autora britânica C.J. Tudor a chegar ao Brasil. Em O homem de giz, sua obra de estreia, temos uma trama de suspense bem construída, mas sem muito estilo nem experiência. Na sua segunda obra, O que aconteceu com Annie, dá para ver o amadurecimento na construção narrativa, mas, dessa vez, o que faltou foi um suspense realmente efetivo e bem amarrado no final. Em As outras pessoas, Tudor parece, por fim, conseguir integrar as qualidades de suas obras anteriores sem precisar cair tão ostensivamente em seus defeitos. Dizem que a terceira tentativa é a que vale, vamos falar um pouquinho sobre isso aqui.

Na trama de suspense com flertes sobrenaturais, temos um conjunto disperso de personagens que não parecem ter muita coisa em comum, no início, nem mesmo tramas em comum, mas que vão, ao longo da narrativa, convergindo na direção de um mesmo tema: todos estão tentando, de alguma forma, lidar com tragédias terríveis do passado.

A história começa com Gabe, quando ele descobre sobre o assassinato de sua esposa e filha. Apesar da polícia encontrar e identificar os corpos, Gabe não consegue ver verdade na história oficial, porque ele tem certeza que viu a filha sendo sequestrada horas depois do suposto assassinato. Assim, ele larga sua vida inteira para morar dentro de um carro, perseguindo os vestígios já frios de sua filha supostamente morta.

Na lanchonete de um posto de beira de estrada, Katie serve café entediada. Ela vê o pai que procura a filha passar por ali de vez em quando e sente muita pena, mas não faz ideia de como pode ajudar. Katie tem dois filhos pequenos e prefere não se envolver nesse tipo de problema, mas tem um segredo no seu passado que não vai ficar escondido por muito mais tempo.

Um outro carro, uma outra rodovia, temos Fran e Alice, mãe e filha, fugindo de uma cidade minúscula para outra, sempre se escondendo, sempre mentindo os nomes e com as malas prontas. Tem alguém tentando encontra-las, outro segredo, outro trauma, outra história de violência. France parece uma mãe amorosa, mas a menina é assustadiça, tem medo de ir sozinha ao banheiro e vê seu rosto no espelho, porque tem uma coisa perigosa esperando do outro lado.

No meio de tudo isso, vemos de vez em quando uma menina dormindo num quarto branco, ela não acorda há muito tempo, mas, de vez em quando, uma nota soa alta no piano empoeirado no canto do cômodo.

A parte mais intrigante de um suspense é poder enxergar todas as peças muito cedo na história e não ter ideia de como elas se encaixam. A habilidade de C. J. Tudor para criar essa atmosfera de dor e intriga que nos mantem interessados nos personagens e no que eles talvez tenham a dizer um ao outro é sem dúvida a qualidade mais interessante desse romance. Individualmente, todos os personagens são interessantes, mas o que torna As outras pessoas uma leitura realmente recompensadora e o modo como as tramas conseguem se interligar organicamente para contar a história, direcionando tudo para um final não de todo surpreendente, mas certamente satisfatório (satisfatório aqui aplicado não com condescendência, satisfatório no verdadeiro sentido de aquilo que traz satisfação).

A estrada é o lar da maioria dos personagens dessa história, que estão sempre fugindo ou correndo atrás de alguma coisa perdida, e me parece que essa é a grande metáfora por traz de tudo que o livro conta: é sobre o percurso, sobre o caminho e sobre as pessoas que encontramos ao longo dele, as outras pessoas do título. Quando algo ruim acontece, nunca acontece com a gente, nunca acontece perto demais do que a gente entende como nossa felicidade, são sempre as outras pessoas que sofrem, que perdem, que erram e se arrependem. Na estrada, todo mundo se conecta e os problemas das outras pessoas são nossos problemas também.

As outras pessoas foi obra indicada pelo Clube Intrínsecos no mês de Abril. Se você assinante, não deixe de conferir a revistinha com material extra, tem uma entrevista interessante com a autora e alguns ensaios que ajudam a entender o universo abordado na história. A obra deve ser lançada para livrarias nos próximos meses.

as outras pessoas, de c.j. Tudor

C. J. Tudor é uma escritora britânica que se interessa pelos temas do macabro, do inquietante e do desconhecido. Desde muito nova, devorava as obras de Stephen King e James Herbert e os considera suas maiores influências como escritora. Suas obras são publicadas no Brasil pela Editora Intrínseca.

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