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BTS, Carl Jung e o Mapa da Alma

17 maio 2020 0 Comentários

BTS

*esse texto expressa minha mera opinião sobre a influência das teorias de Carl Jung no processo criativo de Map of the Soul. 

BTS hoje é um ato internacional. Contudo, além de suas músicas viciantes e videoclipes grandiosos, o septeto – composto por Jin, SUGA, J-Hope, RM, Jimin, V, Jimin e Jungkook – consegue unir sua música a temas complexos. Não é surpresa o grupo abordar um discurso universal e mais íntimo, expondo um pouco de sua intimidade através das letras de suas canções. É algo correlacionável, que chama a atenção das pessoas e vende. Contudo, em sua mais recente era (posso chamar assim?), os integrantes decidiram ir além ao unir o K-pop a Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica. 

Uma união um tanto quanto inusitada, mas que resultou em Map of the Soul: Persona (2019). O primeiro álbum que abordaria os conceitos do Mapa da Alma, de Carl Jung. No entanto, para entendermos essa conexão e fazermos a ponte entre a música e os estudos do psiquiatra é necessário compreendermos os conceitos junguianos de psique.

Primeiramente é preciso esclarecer o que é psicologia analítica. O termo criado pelo próprio Jung tem como objetivo compreender o indivíduo em sua totalidade e que este mesmo sujeito sofre interferências dessa coletividade. Ou seja, ela possui uma visão mais ampla do indivíduo e como fatores socioculturais influenciam em seu desenvolvimento.

Dentre seus inúmeros estudos, alguns conceitos se popularizaram como “self”, “persona”, “sombra”, “animas/animus”, inconsciente pessoal”, “inconsciente coletivo”, “arquétipos”, influenciando vários campos da filosofia, teologia, literatura, psicologia etc. Sendo grande parte de seus estudos reunido no livro “Jung: O Mapa da Alma“, escrito por Muray Stein, onde é introduzido todas os inúmeros estudos e teorias do psiquiatra.

BTS, Carl Jung e o mapa da alma

Tal livro é considerado a melhor forma de introdução para o mundo da psicologia analítica, tendo sido a inspiração chave para o BTS introduzir a era Map of the Soul aos fãs. Como disse anteriormente, não é surpresa o grupo optar por tal tema, pois se formos analisar sua carreira é perceptível o interesse dos integrantes a temas como saúde mental. No entanto, ao tentar dar vida ao Mapa da Alma através da sua música sinto que o septeto quis abordar tais conflitos de maneira mais introspectiva e analítica. Sendo talvez esse o trabalho mais pessoal do grupo de K-pop.

As promoções de ‘Map of the Soul: Persona” se iniciaram com a divulgação do comeback trailer de mesmo nome. Na música entoada pela rimas rápidas de RM, é visível a relação conflituosa entre indivíduo e sua imagem externa como artista. “Persona” nada mais é do que a aparência que assumimos perante a sociedade. Contudo, tal uso tem suas consequências positivas como negativas, sendo estes explicados por RM ao longo da canção. Através das letras conseguimos enxergar sua batalha interna desde suas inseguranças, ao cansaço de viver com essa máscara até a descoberta de seu verdadeiro “eu”.

É importante lembrar que a Persona ocasiona o desenvolvimento da nossa personalidade e todos nós passamos por essa adaptação, já que é através dela que iniciamos o nosso processo de autoconhecimento nos libertando aos poucos dessas amarras e externando nossa verdadeira individualidade. Contudo, existem indivíduos que não conseguem se desvincular dessa “máscara” seja por medo, insegurança e, consequentemente, não evoluindo como pessoa. RM descreve isso muito bem, durante este trecho:

Alguém como eu não é bom o bastante para a música
Alguém como eu não é bom o bastante para a verdade
Alguém como eu não é bom o bastante para um “chamado”
Alguém como eu não é bom o bastante para ser uma inspiração

Se a Persona é a máscara ou identidade usada como uma segunda pele para ser projetada ao mundo. A nossa Sombra seriam as partes que queremos esconder do mundo. Poderíamos dizer que é o “lado sombrio”da nossa personalidade, onde estão enclausurados nossas dores, sentimentos/instintos reprimidos. Vou mais além e digo que seriam nossos “demônios pessoais” que não expomos ao mundo.

A letra de Interlude: Shadow, que faz parte do álbum “Map of the Soul: 7“, do BTS, continua a desenvolver os conceitos jungianos. Agora através de SUGA, vemos um letra muito mais obscura. O grande obstáculo aqui é o indivíduo abraçar esses conflitos ou seu “lado sombrio” para encontrar a felicidade. O próprio Jung disse que a maneira de encontrarmos uma liberdade é tornando esses conflitos conscientes e os enfrentando.

Ninguém se ilumina imaginando figuras de luz, mas se conscientizando da escuridão”.
                                                              – Carl Jung –

Interlude: Shadow seria o BTS mostrando aos fãs a batalha interna que sofrem entre externarem ou não esse “lado sombrio”, diante da vida pública que vivem. Se no começo da música SUGA queria fugir desses conflitos ao seu final ele os aceita. Reparem que ele ainda não os enfrenta, mas dá o primeiro passo para sua felicidade ao reconhece-los.

Sendo essa batalha exposta na música Black Swan. Através de um art-film belíssimo, que reproduz o famoso conto de “O Lago dos Cisnes”, o BTS dá espaço a um grupo talentosíssimo de bailarinos que contam através de seus movimentos essa guerra interna. Dessa vez, o grupo abre mais uma camada ao mostra não apenas o que a fama cobra deles por serem figuras públicas, mas também suas incertezas como artistas ao expor o medo pelo fim de sua criatividade.

Em Map of the Soul: 7 fica claro como a arte é importante para o BTS, ao ponto de finalmente encarar seus conflitos e por fim encontrar a liberdade. Livres, sua arte flui, voa e a busca por um balanço continua sem as amarras de suas sombras.

É através desse balanço que encontramos o nosso Self, ou seja, nosso verdadeiro “eu“. Ele é que une todas as partes e lados da nossa mente, o inconsciente e a consciência. Dentro da filosofia exposta pelo BTS, seria o septeto finalmente entender que a arte (ou até mesmo a fama) irá exigir deles como indivíduos, mas isso não pode fazer com que exclua quem eles verdadeiramente são. As letras de ON são bem esclarecedoras ao dizerem:

Que venha, que venha a dor, oh yeah
(Eh-oh)
Venha, traga a dor, oh yeah
Tudo que eu sei
É apenas seguir adiante e adiante e adiante e adiante
(Eh-oh)
Que venha, que venha a dor, oh yeah

Aqui o BTS finalmente entende que a busca pelo balanço pode ser dolorosa, mas que faz parte do nosso processo de individualização. Sendo assim como é possível chegarmos através desse balanço ? Ego é a resposta.

A origem do Ego reside dentro do conceito de Self. Para Carl Jung este é o centro do consciente humano, é a parte da nossa mente onde reside nossa consciência, nossa identidade e existência. O Ego junguiano organiza nossos pensamentos, sentimentos, sentidos, e intuição, e regula o acesso à memória.

É sobre essa ligação que vemos J-Hope falando em Outro: Ego, última música que fecha Map of the Soul: 7. Nela o rapper faz uma retrospectiva visual dos 7 anos do grupo, passando pelos momentos de glória e de dor. Contudo, é através dessa vivência que sentimentos e valores são agregados à nossa mente. É parte do nosso processo de desenvolvimento. Aceitando o nosso Ego, estamos aceitando a ligação entre o mundo externo e interno. No caso de J-Hope (e do BTS como um todo) é aceitar o artista e o indivíduo, tendo um a função de completar o outro.

A vida, não de J-hope, mas de Jung Hoseok, aparece

E após toda essa jornada é que encontramos quem realmente somos. Um processo lento e desafiador, mas que vale cada segundo. Com isso, posso dizer que a era Map of the Soul é uma carta de amor do BTS ao próprio BTS, mostrando os sete anos de sua jornada como artistas e indivíduos.

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