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Considerações sobre a decadência dos super-heróis

27 junho 2020 0 Comentários

super-heróis

Em 1938, dois judeus sem muitas expectativas no contexto da crise financeira americana tiveram uma ideia esquisita: e se Moisés escapasse da morte em outro planeta e chegasse à Terra numa manejadora espacial, para viver uma vida simples no interior do Texas e por fim salvar o mundo com seus poderes especiais de homem alienígena? Eu sempre tenho essa impressão de que, hoje em dia, estamos acostumados demais com a ideia de um Superman, mas, se voltarmos um pouquinho no tempo, se tentarmos ver o mundo daquela época, com a mentalidade daquela época, não parece extremamente empolgante? O mundo está acabando!, anuncia as manchetes dos jornais. Surgem os super-heróis!, rebatem as capas coloridas dos quadrinhos. Tudo numa mesma banca.

Mas isso foi antes. Os heróis nasceram, cresceram, mudaram muito e viraram uma coisa independente do que o Superman queria ter sido no início. A indústria dos quadrinhos ficou gigantesca por um tempo, depois quase entrou em falência, os heróis morreram de overdose tantas vezes ao longo de seu tempo de trevas. Eles surgiram como uma piscadela otimista em tempos difíceis, mas, depois, quando as coisas ficaram mais fáceis, eles logo se tornaram ingênuos demais, coloridos demais. Antiquados para caramba. Foi por isso que Alan Moore escreveu Watchmen, foi por isso que John Constantine e o Justiceiro se tornaram populares, foi por isso que Grant Morrison escreveu Os invisíveis e Neil Gaiman reformulou Sandman. Os heróis tiveram que se reinventar e mudar para poderem se tornar grandes de novo.

neil Gaiman

Aí chegamos aos dias de hoje. Olhe a sua volta. Os desenhos na televisão, as telas de cinemas. Eles estão por toda parte e são enormes em tudo que fazem. Comecei o texto com uma visita cronológica só para que vocês entendam, isso não é um texto sobre como eu odeio super-heróis, é sobre como eles precisam urgentemente mudar de novo. Eu honestamente não aguento mais esses filmes de super-heróis. Esses filmes, especificamente.

Quando eu era criança, eu adorava o Superman. Hoje em dia, eu ainda gosto, só que o Superman mudou e eu continuei gostando de outra coisa. Acho que a maioria das pessoas não entraria mais no cinema hoje em dia para ver um cara certinho de terno e gravata, todo destrambelhado, trocando de roupa numa cabine telefônica para salvar o mundo. E está tudo bem.

Em 2010, quando Robert Downey Jr. deu vida ao Homem de Ferro pela primeira vez, eu estava no cinema vendo o filme e, na hora, eu não sabia que a era dos super-heróis estava voltando, mas a experiência foi incrível. Era uma coisa nova para as crianças, mas, para as pessoas da minha geração, era uma nova chance para uma coisa incrível que a gente tinha esquecido.

Daí veio o Capitão América, veio mais um Superman, outros tantos Batmans Batmen, algumas tentativas com o Hulk, veio a Viúva Negra aparecendo em vários filmes ao mesmo tempo e isso foi estranho e depois agradável e depois foi o estopim para um grupo de super-heróis aparecer completo pela primeira vez em único filme, quando Vingadores estreou em 2012.

super-heróis

Foi um caminho interessante, mas também foi bem longo, não acham? Um pouco longo demais, a esse ponto, talvez já esteja mais ou menos na hora de parar um pouco e se reinventar?

A geração que cresceu comigo, a geração que lia quadrinhos quando criança, agora tem empregos e uma renda e filhos e poder aquisitivo, essa geração, que tinha que guardar dinheiro do lanche da escola para comprar quadrinhos, agora pode pagar uma fortuna num action figure da Mulher Maravilha, num balde de pipoca especial dos Guardiões da Galáxia, numa edição especial em capa dura de Crise nas Infinitas Terras. Isso é uma coisa boa, mas também deixou tudo tão banal. Esses filmes e produtos simplesmente não param de chegar e, por mais que de vez em quando alguma coisa muito legal aconteça (é incrível que filmes como Mulher Maravilha e Pantera Negra aconteçam, mas quantos mais capitães e homens disso e daquilo ainda dá para inventar?), no geral, não parece que estamos constantemente vendo e esperando pela mesma história? Não parece às vezes que todo filme é só um rito de passagem até aquela cena pós-crédito que nos leva a algum outro filme que, por sua vez, também não consegue ser qualquer outra coisa.

 super-heróis

Toda essa onda de universo compartilhado foi divertida e todas as referências e coisas que a gente podia notar e conectar foram boas nas primeiras três vezes, mas e as outras cem? Eu amo super-heróis desde muito pequeno, mas até eu já consigo admitir que está na hora de parar. Pelo menos por um tempo. Parar e depois mudar.

O que realmente acontece no filme do Homem-Formiga? Eu legitimamente esqueci. E tudo bem, já faz um tempo. Mas eu vi Thor: Ragnarok semana passada (o isolamento social me deixou esquisito, para mais decisões estúpidas como essa me sigam no Twitter) e não saberia dizer o que realmente acontece, porque, na prática, não acontece nada demais.

Eu fiz as contas e de 2010 para cá, nós já vimos trinta e quatro filmes de super-heróis (e eu só estou contando as duas franquias principais, Marvel e DC, nada de heróis para adultos nem Sony ou X-Men) e tenho quase certeza que no máximo só uns dez são de fato interessantes.

Na TV, a CW faz os heróis da DC brincar de casinha, era engraçada no início, mas, depois de três temporadas, no máximo, essas coisas sempre se tornam uma bola de neve sem controle nem destino. E como são heróis da DC, todo fim de semana, os roteiristas dão um jeito do Flash correr até romper a barreira do espaço-tempo (?), voltar no tempo, consertar tudo que deu merda para depois eles poderem estragar tudo de novo.

supergirl

A Netflix tentou atrair o público adulto com um pouco de violência em Demolidor. Como sempre, no começo, alguém planejou tudo muito bem e executou direitinho, para duas temporadas depois alguém aleatório enfiar um monte de personagem desavisados que não combinam e lançar uma bomba atômica como os indefensáveis Os Defensores.

Nisso tudo, os quadrinhos, a fonte base do universo dos super-heróis como um todo, precisa inverter os papéis e correr atrás para se adaptar ao cinema, para se adaptar à TV. É estranho dizer, mas, hoje em dia, nas editoras grandes, quase não temos mais histórias originais, temos linguagem pronta para se converter à TV e ou ao universo de filmes. Não dá mais para você ter um herói preferido e ler todo mês um pouquinho a mais sobre ele, porque o seu herói preferido é só uma engrenagem num absurdo emaranhado de grandes sagas que afetam todos os heróis a todo momento. Não dá para ler sobre o Homem-Aranha, porque a história do Homem-Aranha está sendo contada numa revista do Homem de Ferro (?). É um mercado estranho e que a gente alimenta por uma nostalgia burra que nem se paga mais, quando você para um pouquinho para pensar.

É isso. Em 2020, o ano de todas as tragédias, o ano do fim do mundo e das coisas como as conhecemos (não é de fato fim do mundo, não é? Acho que sem a gente o mundo vai ficar bem), eu vou matar meus heróis mais uma vez. Vou ficar longe um pouquinho disso tudo, até que um belo dia… algo completamente novo, e mesmo assim tão cheio de boas memórias, aconteça. E a gente acredite em super-heróis outra vez.

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