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Crítica | Coringa

4 outubro 2019 0 Comentários

Coringa estreia hoje nos cinemas e promete contar a origem do vilão. Com uma pegada mais realista, o filme de Todd Philips não pretende contar a história dessa emblemática figura da cultura pop por meio de uma narrativa comum.

Na produção nos deparamos com o homem por trás do temido nome. Particularmente eu sempre entendi o personagem como um agente do caos, não conseguindo identificar os motivos por trás de tamanhas atitudes. Por mais controversos que sejam, Coringa me trouxe certa lucidez por trás da persona ao me apresentar Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) um comediante que ganha a vida como palhaço pelas ruas de Gotham City.

O roteiro de Scott Silver é muito inteligente em ambientar o filme na década de 70, época  que Nova York estava à beira da falência em decorrência da crise petrolífera durante o governo Nixon. Estamos diante de uma cidade com altos índices de criminalidade, desemprego, se vendo obrigada a reduzir gastos públicos. A consequência é uma população desamparada e com medo.

Divulgação/ Warner Bros Pictures brasil

A fotografia e direção de arte colaboram com essa sensação. Tendo claramente inspirações de filmes como Taxi Driver (1976) e Warriors – Os Selvagens da Noite (1979), a produção consegue dar vida a esse centro urbano decadente. Paralelamente, o filme também consegue fazer uma boa conexão com o universo do Homem-Morcego ao tornar essa Gotham City completamente imersiva aos olhos do espectador por atrelar o arco do protagonista à personagens, situações e easter eggs presentes em sua narrativa.

Entendendo o contexto social de Coringa, podemos também entender a mensagem que o filme quer transmitir. Sim, é um longa extremamente violento – inclusive acredito que o filme deveria ter classificação 18 anos no cinema -, porém em nenhum momento instiga a violência ou tenta glorificar seu protagonista ou torná-lo um símbolo. Pelo contrário ele nos adverte.

E é no meio do caos que encontramos Arthur, ao nos depararmos com pessoas sem perspectiva de vida, desamparadas pelo sistema. Pobre, sem escolaridade superior e estigmatizado por possuir uma condição psicológica, Arthur, como tantos outros, tenta sobreviver em uma sociedade totalmente corrompida.

Arthur Fleck, é mais uma casualidade da realidade vivida naquela história, e devo confessar não tão distante da nossa. Por inúmeras vezes me encontrei chorando durante a projeção, nunca pelo personagem, mas pela mensagem de que nós – sim, nós, no coletivo – precisamos mudar, dialogar, para que não possam ser criados mais Coringas.

Divulgação/ Warner Bros. Pictures Brasil

O debate aqui é muito mais profundo e sinceramente não tenho plena certeza se estamos preparados o suficiente para discuti-los. Todd Philips incita que o espectador saia do cinema querendo discutir a importância da saúde mental e políticas de amparo – caso você não saiba cerca de 86% dos brasileiros sofre algum tipo de transtorno mental segundo a OMS -, desigualdade social e principalmente nosso rumo como sociedade. Já que vivemos uma época de valores invertidos, onde direitos básicas e até mesmo empatia ao próxima não possuem valor nesta equação.

Quem guia a jornada é Joaquin Phoenix. Desinibido de qualquer restrições, vemos o ator completamente entregue ao personagem, Visceral, dramático e frágil, Phoenix transmite uma atuação digna ao estudo de personagem realizado. Não se apeguem a comparações, mas vivenciem essa performance recheada de camadas e complexidade. Mesmo possuindo um elenco de apoio com ótimas atuações como Robert DeNiro, Frances Conroy e Zazie Beetz, estes ficam um pouco esquecidas diante do brilho de seu protagonista.

Coringa traz um discurso que surpreende e machuca ao guiar o espectador por essa trajetória envolta a um colapso nervoso e social. Como disse anteriormente, uma realidade não tão diferente da nossa, mas que cabe a nós repensarmos, refletirmos as questões levantadas para que não tenhamos o mesmo final.