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Crítica | El Camino: A Breaking Bad Movie

17 outubro 2019 0 Comentários

Parece que foi ontem que fomos apresentados ao professor de química Walter White (Bryan Cranston), que ao descobrir que tem um câncer terminal decide se arriscar num negócio inusitado, transformar sua van em um laboratório de fabricação de metanfetamina e assim faturar uma grana para deixar para sua família amparada após sua eminente morte. Nesse período também fomos apresentados ao viciado Jesse Pinkman (Aaron Paul), que se tornaria o parceiro de Walter nessa empreitada que levaria a uma jornada de muita tensão, suspense e apuros durante cinco excelentes temporadas.

Criada por Vince Gilligan, Breaking Bad foi um marco da TV nos EUA, se tornando um fenômeno global nas suas duas últimas temporadas e cravando seu espaço como uma das melhores séries de todos os tempos, sendo agraciada com vários Emmys (o Oscar da TV nos EUA) incluindo melhor ator para Bryan Cranston e Aaron Paul em momentos diferentes de suas jornadas, além do cobiçado prêmio de Melhor Drama consolidando uma série que já era bem sucedida em vários aspectos. O sucesso foi tanto que ainda gerou um spin off, a também elogiada Better Call Saul protagonizada por Bob Odenkirk se passando no mesmo universo enriquecendo mais a mitologia que cerca série principal.

Corta para 2019, após seis anos do fim de Breaking Bad, quando Vince Gilligan colocou um ponto final na jornada de Walter White em “Felina”, o último episódio da quinta temporada, surge de surpresa no meio do ano o teaser do primeiro longa-metragem do universo Breaking Bad protagonizado por Jesse Pinkman e produzido pela Netflix. A notícia pegou até o fã mais assíduo da série de surpresa, gerando um hype que a muito tempo ficou adormecido desde o último episódio da série.

Desta forma “El Camino – A Breaking Bad Movie” que estreou no último dia 11 de outubro cercado de expectativas, ainda mais com a promessa de que veríamos o desfecho da jornada de Jesse Pinkman, que no final de temporada conseguiu escapar de seu cativeiro com a ajuda de seu mentor Walter White em um último ato para derrubar os traficantes de metanfetamina que o haviam prendido. Após assistir ao longa, posso dizer que El Camino cumpre seu papel de forma exemplar, não só por conectar o expectador com o universo da série de novo, mas por trazer uma nostalgia e uma forma de contar uma história que somente poderia ter saído da mente genial de Vince Gilligan, que aqui assina tanto a direção quanto o roteiro.

A história começa minutos depois de Jesse escapar no carro de Todd (Jesse Plemons), a narrativa se inicia com uma tensão no ar com a polícia no encalço de Pinkman. A trama do filme funciona de forma independente, mas só fica mais rica para quem tem um conhecimento prévio da história dos personagens, há uma série de flashbacks que são usados para moldar o desfecho dramático da história de Jesse e com isso várias participações especiais de conhecidos (não se preocupe, sem spoilers aqui) que cruzaram o caminho do personagem em algum momento aparecem para dar o ar da graça.

Assim como no seriado, aqui Vince Gilligan se mostra à vontade para tocar o barco com aquilo que sabe melhor, contar uma história aparentemente comum que algum momento se mostra intensa e emocionante, mas sem perder o foco do desenvolvimento de seu personagem principal. É claro que a linguagem cinematográfica se mostra desafiadora ao diretor, que no primeiro ato sofre um pouco para dar ritmo a história que as vezes carece de uma urgência maior devido a situação que Jesse se encontra. O roteiro não é disperso, mas conciso naquilo que quer mostrar, Pinkman sempre foi o lado mais humano de Breaking Bad e neste longa não é diferente, ainda que seja obrigado a lidar com situações inusitadas, as vezes até bizarras, o personagem tenta a todo tempo achar uma forma de seguir em frente e sair dessa vida de crime.

É interessante que um determinado momento, alguém diz a Jesse que ele nunca poderá se livrar da vida que escolheu e El Camino é uma confirmação disso, a jornada de um personagem que tenta dar um ponto final e encontrar finalmente a paz que parece muitas vezes fora de alcance. O roteiro insere nas entrelinhas pequenos pontos de conclusão para o personagem, uma forma de despedida onde a narrativa vai traçando um caminho regado de incógnitas, ao mesmo tempo que somos levados a revisitar a história de Pinkman que refletem nas decisões que toma no presente.

O segundo ato de El Caminho mostra uma evolução bastante consistente como se a direção ganhasse mais corpo à medida que a trama vai avançando, muitos podem achar que o filme é um episódio longo da série, mas o longa funciona por contra própria apesar de beber muito da fonte que lhe trouxe tanto sucesso, a certos momentos aqui tão excelente que mostram o porque do universo Breaking Bad ser tão único, seja na direção apurada, seja nas escolhas totalmente acertadas na trilha sonora, a sequência do deserto, por exemplo, com a canção “Share The Night Together” é um dos pontos altos da narrativa, simplesmente memorável.

Outro ponto positivo de El Camino são as atuações, sem mencionar muitos nomes, pode-se dizer que o elenco está afinado e consistente, mas o show é todo de Aaron Paul que continua muito bem no papel de Jesse, que se mostra um personagem bastante traumático, paranoico e cheio de arrependimentos, mas ainda assim um poço de emoções capaz de causar empatia a quem assiste, algo que somente Paul consegue fazer com o personagem.

É interessante perceber que Vince Gilligan não se prende a alguns detalhes quando precisa contar uma boa história, são seis anos desde o final da série original e os atores mudaram fisicamente, mas o diretor prefere manter a essência dos personagens em evidência para que a diferença física de alguns não sejam percebidas, então você pode ver um determinado ator diferente do que era originalmente, mas ainda assim pelos trejeitos e maneirismos você percebe que nada mudou.

Essa dedicação, esse amor de Gilligan pela sua obra, torna El Camino uma longa especial. Alguns podem dizer que o filme é desnecessário, o que discordo, afinal a partir do momento que você se importa com um personagem como Jesse, o desfecho de sua história se torna necessária dentro da mitologia deste universo, mas não há dúvidas que a nostalgia de revisitar os personagens de Breaking Bad no final das contas torna a experiência bastante satisfatória e sem falar que é um filme que tem muitos adjetivos positivos que se sobressaem a qualquer equívoco que a trama possa ter.

De um modo geral “El Camino – A Breaking Bad Movie” é um ótimo filme dentro de sua proposta, mantém a essência daquilo foi sucesso e adiciona novas vertentes a personagens conhecidos os tornando ainda mais ricos e complexos. Tecnicamente o filme é excelente, talvez pudesse ter uma urgência maior, mas ganha pontos pelo cuidado no desenvolvimento de sua narrativa principalmente no que diz respeito ao desfecho da história de Jesse, que tem um terceiro ato digno de Breaking Bad, explosivo e reflexivo. É um filme feito para fãs, mas pode chamar atenção daqueles que ainda não conhecem este universo incentivando a darem uma chance ao seriado. Vince Gilligan é eficiente no roteiro e mesmo que ainda se mostre um cineasta em desenvolvimento na direção, sua maturidade e originalidade mostram uma visão bastante singular de alguém que pode ter uma carreira consistente em futuros projetos. El Camino é mais um acerto da Netflix este ano no quesito drama, entretém e mantém mais vivo o legado de um dos melhores seriados que já existiram.

Observação: Esta crítica tem trilha sonora, recomendo ouvir esta música do filme enquanto está lendo.