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Crítica | Star Wars: A Ascensão Skywalker

10 janeiro 2020 0 Comentários

É o fim de uma era, para o bem, ou para o mal. Foi assim que me senti quando sai da sessão deste derradeiro filme da saga mais famosa da história do cinema.

Star Wars é parte de uma cultura global, que tem fãs espalhados pelo mundo todo, uma franquia milionária criada em 1977 por George Lucas e que ainda captura a imaginação de crianças e adultos de várias gerações. Então era certo que “A Ascensão Skywalker” teria um peso grande, de fechar uma jornada de nove filmes que atravessou décadas, mas a grande questão era, seria esta nova empreitada dirigida por J.J. Abrams (Super 8), capaz de trazer um final no mínimo satisfatório? A resposta vem a seguir.

Depois de uma reação bastante dividida em relação aos “Os Últimos Jedis” dirigido por Rian Johnson, que foi bem aceito pela maior parte da crítica especializada, mas que deixou muitos fãs de longa data da franquia destilando ódio nas redes sociais por não terem gostado, além da repercussão negativa do filme Solo: Uma História Star Wars em 2018; a Disney precisava que o episódio 9 cumprisse as expectativas dos fãs mais xiitas, além de finalizar a jornada de Rey, Finn e Poe de uma forma que agradasse a todos.

Todo este contexto foi explicado anteriormente, para que você entenda tudo que levou as decisões tomadas em “A Ascensão Skywalker”. De cara posso dizer que o filme não é ruim, longe disso, tem bons momentos, tem um visual que salta aos olhos a cada nova cena e um elenco afinado, que entrega um trabalho bastante consistente. Porém, este longa é no final das contas, como posso dizer, ok, não é ruim, mas também não é bom, fica ali no meio termo, ainda assim é possível achar um equilíbrio aqui de satisfação quando a história é encerrada marcando o fim de um ciclo, se você não for uma pessoa muito exigente é claro.

O filme inicia cheio de conflitos e logo mostra para o que veio, porém não da forma que se imagina, afinal o episódio 8 deixou a trama com um futuro em aberto e com muitas possibilidades. Infelizmente, o retorno de J.J. Abrams a direção e ao roteiro que é também co-escrito por Chris Terrio (Batman vs Superman), faz com que a maior parte dos acontecimentos de “Os Últimos Jedis” seja ignorado completamente, fica a impressão que estamos assistindo uma continuação direta de “O Despertar da Força”, mas desta vez com uma ameaça maior e bem definida na figura do Imperador Palpatine.

Com esta nova direção apontada pelo roteiro, o público é forçado a ignorar alguns fatos e focar numa história que praticamente reconta alguns momentos chaves pré-estabelecidos ganhando um foco mais derradeiro que visa finalizar a história misteriosa de Rey, além de dar desfecho a Finn, Poe, Kylo, Leia e outros personagens que fazem parte deste universo. O maior problema de “A Ascensão Skywalker” é fato de a narrativa ter muita coisa para ser trabalhada e muitas revelações que tornam a história por assim dizer, previsível.

Fica nítido em tela a mão do estúdio pesando para que a narrativa satisfizesse o desejo dos fãs, aparando arestas e injetando uma exorbitante quantidade de “fan service” que deixam a trama fácil de prever e sem muitas surpresas. Fiquei com a impressão, de que o filme é uma grande carta de desculpa ao que fizeram no filme anterior, traindo muito do que Rian Johnson havia estabelecido, desta forma J.J. Abrams sucumbiu a teorias e outras previsões seguindo por caminhos completamente confortáveis e sem muita criatividade.

É bom salientar, que se apoiar na nostalgia não é algo ruim, mas utilizar-se dela para criar algo mais satisfatório, nem sempre resulta em algo necessariamente bom. Tudo que faz Star Wars, ser Star Wars está presente no filme, isso não se pode negar e em vários momentos somos lembrados porque amamos tanto esse universo. São nesses pequenos momentos que longa ainda encontra força para escapar das armadilhas que a própria narrativa criou para si.
Ao longo de suas mais de duas horas, “A Ascensão Skywalker” é um filme frenético, cheio de aventura, suspense e reviravoltas, os efeitos são ótimos, a trilha de John Williams, ainda que nitidamente cansada, tem seus momentos, além disso a fotografia é simplesmente espetacular. Talvez o maior mérito do roteiro é quando se apoia na relação dos personagens, durante dois filmes aprendemos a nos afeiçoar a Rey, Finn, Poe e Kylo, aqui todos tem seu espaço na narrativa para brilhar e na maioria das vezes funciona, isso porque os atores, agora mais à vontade no papel conseguem entregar um trabalho dramático e com mais peso.

Uma das ressalvas dos filmes anteriores, era o fato do trio protagonista não interagir muito entre si. Sempre víamos Finn e Rey, Finn e Poe, sempre em duplas, ou trilhando suas próprias jornadas sem tempo de tela juntos, desta vez temos esses personagens bastante próximos, reforçando laços, se apoiando e mais unidos nesta jornada para salvar a galáxia. É muito bom ver que John Boyega no papel de Finn, serve como um elo forte para o trio, o ator tem uma boa química com Daisy Ridley (ótima), assim como Oscar Isaac (correto), neste ponto encaro como um acerto positivo, ainda que seja subaproveitado de forma geral na trama.

Outro ponto que vale a pena o destaque é a relação entre Rey e Kylo, continuando a evolução do filme anterior, ambos personagens estão mais conectados do que nunca em um arco dramático bastante interessante, feroz e cheio de emoção, Adam Driver consegue dar humanidade a esse vilão de mente perturbada muito bem, sem falar que funciona melhor ainda em cenas de ação, destaque para aquela no fim do terceiro ato com uma coreografia impressionante que conta também com a participação de Daisy Ridley que também faz um bom trabalho.

Ainda sobre o elenco, o papel de Rose (Kelly Marie Tran) foi diminuído em relação ao filme anterior, o que é uma pena e um descaso tremendo, Lando (Billy Dee Williams) foi bastante subaproveitado, o que é uma vergonha para um personagem considerado favorito de muitos fãs e que deixou sua marca na trilogia clássica. O imperador Palpatine (Ian McDiarmid) tem grande influência na trama como um todo, mas sua presença parece uma reciclagem de tudo que foi feito antes. Os novos personagens foram pouco aproveitados na trama também, Zorii (Kery Russell) foi um interesse romântico que teve pouco tempo de tela apesar da sua relação com Poe Dameron, o general Pryde (Richar E. Grant) tem seus momentos, mas muito pouco para a relevância do ator. Talvez Jannah (Naomi Ackie) seja a melhor nova personagem, sua ligação com Finn é bastante interessante, merecia mais desenvolvimento.

A narrativa de “A Ascensão Skywalker” funciona bem no primeiro ato, intercalando ação e humor, na maioria das vezes destacando a figura de C3PO que está simplesmente hilário roubando diversas cenas, e a nova criaturinha cheia de carisma e com nome estranho, Babu Frik. O filme começa a sofrer mais, quando começa a inserir reviravoltas e revelações no fim do primeiro ato e se estendendo em praticamente todo o segundo também, a verdade é que mais uma vez, as revelações servem apenas para satisfazer o fã mais radical de Star Wars e desta forma estas soam gratuitas demais.

Talvez o grande problema deste longa, é que ele trabalha em um terreno muito seguro, sem correr riscos, com ideias que no final das contas parecem desgastadas sem que alcance uma maturação necessária para que o público sinta o impacto. As revelações sobre o passado de Rey, por exemplo, à primeira vista surpreendem, mas depois acabam por soar bregas e sem inspiração. Se por um lado a personagem cresce e parte dessa jornada soa coerente, por outro lado abre a necessidade do roteiro de buscar respostas lá no passado da saga (até a trilogia prequel se torna ainda mais importante neste contexto) de forma fechar lacunas, mas acabam apenas por confirmar teorias que a muito tempo vinham sendo publicadas por fãs em diversos fóruns na internet.

No final das contas, existe muito o que apreciar em “A Ascensão Skywalker”, momentos mais íntimos com personagens conhecidos como Leia (despedida digna para Carrie Fisher), fazem o coração do fã mais fiel da saga se encher de conforto e satisfação, neste ponto vemos a dedicação das pessoas por trás dessas produções, sem falar que quanto mais o filme é sutil em seus momentos menores, melhor ele fica. Quando o longa tenta ser épico demais, grande demais, satisfatório demais, acaba pecando pelos excessos e pela falta de emoção em cenas que acabam por não ter o impacto emocional necessário.

É nítido que um grande blockbuster como este deixará as opiniões bastantes divididas gerando discussões, análises sobre as escolhas tomadas por J.J. Abrams para encerrar esta saga atemporal, mas não há como negar que “A Ascensão Skywalker” prefere seguir um caminho que garanta uma reação mais positiva do público, com isso soa óbvio em meio as suas grandes ambições, o que deixa um gostinho um pouco amargo de que o filme poderia ser mais do que entregou. Ainda assim, não há como negar que a última cena fecha o longa seja simbólica e signifique o fim de uma era, o fim de uma saga que transcendeu gerações e uniu pessoas em torno de um verdadeiro fenômeno, ainda que tenha suas imperfeições, a Saga Skywalker ficará marcada com uma das mais relevantes da história do cinema.

Que a Força esteja com você, sempre.

 

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