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Cuphead: outro ponto para a nostalgia?

29 outubro 2017 7 Comentários

Cuphead se
popularizou mais rápido do que eu esperava para um suposto joguinho indie de plataforma. Na verdade, acho
que estamos bem perto de entrar numa crise de significado de palavras, já que
tudo que é indie parece tão mais mainstream
que o resto da indústria. 



Apesar dessa popularidade tão fora da curva ser o
exato oposto do que se espera de um jogo de nicho, Cuphead, tão certeiro quanto Stranger
Things
 é a nova leva de produtos cuja matéria-prima essencial é a
nostalgia. Atacando nossos corações justamente com afeto e memória, com uma
reciclagem bem feita das mecânicas simples e obsoletas dos jogos de plataforma
de muitas e variadas gerações atrás.

Através de uma
pesquisa rápida na internet você irá encontrar um mundo de textos e vídeos, de
análises diversas, todo mundo tentando identificar as reinvenções e referências
que compõem e povoam o simpático e colorido mundo do jogo. Seja o traço de cartoon meio anos 1930, com seus
adoráveis protagonistas que mais parecem um par de Mickeys com cabeças de
caneca, seja sua mecânica tão agradável e imersiva, misturando elementos que
vão de Mario, Mega Man e Donkey Kong
até Street Fighter
.


Num
lapso de cinismo, podemos argumentar que já não há mais terreno ou espaço
para uma boa dose de criatividade, que a indústria da cultura é hoje
somente baseada em autorreferência. Mas Cuphead, mesmo com a muleta da nostalgia
e da beleza irretocável de seu trabalhoso processo gráfico, faz tudo com um
inconfundível sopro de novidade. 



De fato, jogar Cuphead é um pouco como jogar as primeiras versões de Mario, um pouco como jogar Donkey Kong, como jogar Mega Man ou Street Fighter, a mesma sensação de que algo tão bonito e estranho
está acontecendo na tela e que só você pode levar os heróis adiante, caindo uma
vez ou outra num buraco para fora da imagem ou sendo atingido pelos frenéticos inimigos
pulando de todo lugar, mas sempre aparecendo de novo no início da fase para
tentar outra vez. A sensação é mesmo muito parecida, mas a experiência é tão diferente.

Para
mim, é aí que o jogo realmente se inova. Cuphead faz questão de não ser só uma
experiência incrível de nostalgia, mas principalmente de ser uma experiência incrível
e pronto. Apesar da nostalgia e não por causa dela. O jogo brinca o tempo todo
com nossas memórias, com nossos afetos (com as memórias e os afetos dos
criadores também, tenho certeza), mas nunca faz questão que a gente volte a ser
criança. Cuphead é sobre evoluir
essas dinâmicas e crias memórias novas.

A
dificuldade frustrante que as fases do jogo propõem é, nesse sentido, um dos
grandes triunfos de sua jogabilidade. Novamente, é como jogar todas aquelas
coisas bonitinhas e simples da nossa infância, mas tão mais difícil, tão mais
agressivo, tão mais desafiador e adequado. Vencer em Cuphead exige muito esforço e experiência, exige perder
repetidamente até ser capaz de acertas e ser perfeitamente preciso. Isso não é
experiência nostálgica. É quase alegoria da vida adulta, se me permitem um
pequeno desvio para melancolia.

Mesmo
frustrante e difícil, o jogo teima em não ser injusto e toda vez que você perde
e volta para o início e sabe que tem que tentar de novo, você sabe que consegue
ir mais longe. Não é uma experiência só emocional, portanto, mas também mecânica.

Se é
na memória afetiva de tempos e jogos mais simples que se disfarça a desgastante
dificuldade deste, dá para apontar também uma interessante relação entre o
colorido e ingênuo traço e sua história, bem mais obscura e irônica.

Logo
na introdução, descobrimos que Cuphead e seu amigo Mugman, um pouco inclinados
demais a jogos de azar, perdem às almas para o diabo num cassino (daí o
subtítulo do jogo “Don’t deal with the
devil
”). Toda a jornada que se segue é, portanto, uma tentativa de coletar
almas e enfrentar o capiroto num duelo para pôr de volta a vida nos eixos. Um
pouco demais para um jogo sobre canequinhas bonitinhas que sorriem como
crianças, não?

Cuphead
já é um sucesso absurdo de vendas, surpreendendo ninguém que já tenha olhado nessas
carinhas adoráveis e visto que era impossível dizer um não. Olhe bem para eles
e compre já sua cópia. 

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7 Comentários

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