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Estou Pensando Em Acabar Com Tudo | Crítica

7 setembro 2020 0 Comentários

estou pensando em acabar com tudo crítica

“As pessoas pensam em si mesmas como pontos movendo pelo tempo, eu penso ao contrário. Estamos imóveis e o tempo passa entre nós.” este diálogo dito em um determinado momento do novo filme de Charlie Kaufman (O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) me fez pensar em tantas coisas e notei que é exatamente desta forma que este novo drama que estreou na última sexta feira na Netflix deve ser visto pela primeira vez, um mar de possibilidades numa narrativa longe de ser convencional, mas que tem muito a dizer sobre o existencialismo humano.

“Estou Pensando Em Acabar Com Tudo” é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Iain Reid em 2016. Charlie Kaufman costuma pegar livros complexos deste estilo considerados por muitos inadaptáveis e roteirizar de uma forma única e particular colocando sua própria característica excêntrica tornando a produção um profundo estudo da personalidade humana, mais uma vez ele consegue construir uma narrativa diferente de tudo aquilo que já fez antes.

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A premissa do filme é simples, uma garota (Jessie Buckley) embarca numa viagem com namorado (Jesse Plemons) para casa de seus sogros durante uma nevasca, ela começa a perceber nada é o que parece quando nota coisas estranhas acontecendo depois de um conturbado jantar. O que você precisa saber aqui é que Estou Pensando Em Acabar Com Tudo não é um longa fácil, não traz respostas fáceis, é preciso embarcar na trama e prestar atenção nos detalhes para entender o contexto do que esta sendo contado e mesmo assim não é garantia de que tudo ficará claro uma vez que a trama abre espaço para diferentes interpretações do que esta acontecendo com Lucy e Nate.

O primeiro ato talvez seja o mais forte do longa, muito bem escrito com diálogos interessantes entre o jovem casal de namorados que dura mais de vinte minutos, tudo isso amplificado pelo cuidado técnico composto por uma fotografia belíssima e onde até o formato da tela em película (estreitando a tela da TV) usado em produções antigas ajuda a aproximar mais o público dos personagens numa trama regada de melancolia, drama e um certo escapismo.

I'm Thinking of Ending Things review: Charlie Kaufman film is profoundly laborious | Entertainment News,The Indian Express

O interessante aqui é que Charlie Kaufman que também assina a direção, mostra uma sensibilidade bastante consistente e ajudado por uma edição precisa, vai colocando peças no contexto da narrativa que posteriormente servirão para entender melhor o quebra cabeça montado por ele. O filme é envolvente, é impossível não se importar com os personagens principais depois dos primeiros trinta minutos e é impossível desgrudar da tela sem saber o desfecho deles.

A segunda metade do longa, principalmente no meio do segundo ato, a narrativa se arrasta um pouco o que pode incomodar os mais impacientes, mas isso não diminui o impacto da história, que ganha força na reta final num terceiro ato excelente, poético, triste e arrebatador. Mais uma vez ressalto, Estou Pensando Em Acabar Com Tudo não é um filme com ideias simples, tudo aqui é carregado de complexidade, Kaufman tece um trama não linear em alguns momentos, mas que brinca com a questão de espaço tempo, levando ao espectador a se perder nas suas estripulias visuais e estranhezas mostradas constantemente na tela enquanto te convida para analisar os diversos aspectos da mente humana e a nossa capacidade como seres humanos falhos de precisarmos constantemente de motivações e experiências para dar um significado a nossa própria existência.

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É um longa com várias camadas, a cada nova pista, a cada nova peça que o espectador mais atento descobre, é um prato cheio para ficar mais perto de descobrir do que se trata realmente a história do filme. Tudo isso só foi possível, por causa de uma entrega muito grande do elenco, que aqui podemos destacar como âncora a personagem interpretada por Jessie Buckley (Fargo), uma jovem peculiar que se vê num grande dilema em terminar esse relacionamento que parece não ter futuro, Buckley consegue equilibrar bem os aspectos dramáticos desta personagem dando uma personalidade ambígua e cheia de dilemas numa atuação hipnotizante.

Outro destaque vai para o namorado dela, Nate, aqui interpretado de uma forma bastante humana por Jesse Plemons (Breaking Bad), servindo como o oposto perfeito para personagem de Buckley. Ainda temos boas atuações de Toni Collette (Hereditário) e David Trewlis (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) como os pais de Nate, inclusive ambos brilham na cena do jantar que é bastante esquisita e cheia de momentos antológicos.

Estou Pensando Em Acabar Com Tudo | Crítica

De uma forma geral, Estou Passando Em Acabar Com Tudo é um longa excelente, estimulante e bastante interessante, um drama que transita por outros gêneros inclusive tendo aspectos de um thriller psicológico forte, mas que talvez não agrade a maioria levando a opiniões divididas após seu término, por não se render aos caminhos mais simples e entregar algo onde o resultado final vai deixar muita gente pensando por dias em todos os aspectos da história. Não posso dizer se o filme é excelente como adaptação, porque não li o livro, mas posso dizer que o roteiro de Charlie Kaufman é um dos mais bem escritos do ano e sua direção torna este longa algo bastante singular dentre todas as produções que estrearam até este momento.

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A verdade é que este filme é uma das produções mais brilhantes e estimulantes do ano, com uma produção impecável, atuações brilhantes e uma história que explora as mais complexas vertentes do existencialismo humano usando o tempo com ponto de ignição trazendo um retrato assustador, triste e sombrio de nossos medos e receios. Estou Pensando Em Acabar Com Tudo é simplesmente imperdível.

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