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Homecoming e sua revolução audiovisual

10 maio 2019 0 Comentários

Como transformar um show em um evento cultural e exaltação da cultura negra? A resposta é simples e seu nome é Beyoncé. No dia 17 de abril estreou na Netflix o documentário intitulado Homecoming, que significa festa de ex-alunos, uma celebração bastante comum nos EUA que reúne adultos que um dia foram estudantes para relembrar os velhos tempos de escola.

É com essa premissa que Beyoncé e toda sua equipe organizaram uma apresentação memorável em dois shows no Coachella 2018 (ou Beychella para os íntimos) que marcou a primeira vez que um artista negro se tornou a atração principal no evento. Levando isso em conta, é de se esperar que o documentário tivesse um peso maior do que se podia imaginar e Homecoming entrega mais que isso, não só uma festa da celebração da cultura negra, mas uma festa que privilegia exaltação do feminismo e a união de todas as tribos.

O filme começa brilhantemente com uma abertura apoteótica e grandiosa num palco que simulava as arquibancadas de um estádio de futebol americano, banda em cima e dançarinas e dançarinos embaixo esperando a rainha do show entrar, quando Beyoncé entra a energia do lugar muda e a plateia ensandecida vai à loucura e em êxtase com a dona do espetáculo. Quando a apresentação começa, o documentário ganha força e não para um segundo, tendo apenas alguns respiros onde vemos os bastidores e ensaios antes da estreia mostrando como as engrenagens de um show como este funcionam e se encaixam até chegar ao momento da apresentação.

crédito: Netflix Brasil

A narrativa é bem montada, o show é a atração principal, mas saber como tudo virou realidade através de cenas por trás da câmera é o que torna todo espetáculo especial. A própria cantora e Ed Burke dirigiram tudo com destreza, valorizando pequenos momentos mostrando que nada é feito de forma individual, desta forma o roteiro dá espaço para depoimentos de bailarinos, coreógrafos e equipe criativa darem suas opiniões e mostrarem seu comprometimento para com o show, ao mesmo tempo em que temos aqui uma humanização da Beyoncé ícone, que se mostra mais família, sendo mãe, sendo esposa, mas também preocupada em estar 100% para dar o melhor para seus fãs sem esquecer-se de valorizar as pessoas que trabalham a sua volta.

Quando disse que o documentário é a exaltação do orgulho de ser negro, eu não estava mentindo, tem um lado do filme que mostra muito sobre aceitação, sobre ser negro, sobre ter orgulho de ser negro, algo que não só serve de inspiração para própria cantora, que espalha palavras sábias de ídolos negros em toda a projeção (de Walker à Angela Davis), mas também para sua equipe (composta em sua maioria por negros), que vê na estrela Beyoncé, a pessoa que inspira a tirarem o melhor de si e perseguir seus sonhos.

O documentário também é sobre a exaltação da aura feminina, Beyoncé não é só uma inspiração para jovens meninas negras, a cantora vai além quando transforma a apresentação num movimento cultural, ela quer abraçar todas as etnias, todas as tribos, todas as mulheres e homens no geral e o público percebe isso (e corresponde cantando suas músicas de cor e aos milhares), seja nas representações visuais através das performances com seus dançarinos, seja nas roupas que a própria cantora usa, ou nas transições extremamente corporais e impactantes, tudo isso reafirmado nos depoimentos engrandecendo ainda mais o peso do evento.

créditos: Netflix Brasil

Confesso que não consigo assistir documentários de grande duração se a história e desenvolvimento não forem interessantes, mas com Homecoming isso não acontece, como citei a abertura dá o tom do show, que começa arrepiante e não perde força em nenhum momento, isso também porque aBeyoncé tem uma carreira tão consolidada, que é fácil intercalar vários hits como “Freedom”, “Formation”, “Drunk In Love”, “Love On The Top” só para citar alguns na infinidade de músicas boas que arrepiam a cada nova performance trazida ao palco com uma energia maior a cada nova apresentação.

Um dos melhores momentos de Homecoming é quando Beyoncé começa a trazer gratas surpresas como a participação de Jay-Z (marido), Solange (irmã) e suas amigas, Michelle Williams e Kelly Rowland com quem ela fazia sucesso no começo dos anos 2000 com o grupo Destiny Child’s. As participações somam e mostram que a cantora valoriza quem esteve e quem esta ao lado dela nesta jornada, enquanto que nos bastidores tudo isso é reforçado pelo seu lado mãe com breves participações de seus filhos como a pequena Blue Ivy e seus gêmeos, Sir e Rumi Carter.

No geral Homecoming é um documentário que deve ser assistido por todos aqueles que gostam de música, é bem feito, é bem produzido e dirigido, mas o que diferencia de outros do gênero é sua edição esperta, que junta duas apresentações em uma só criando um verdadeiro espetáculo contagiante e colorido, colocando Beyoncé no topo da cultura pop como ícone que é. O filme não só reflete a cultura negra em toda sua plenitude de uma forma orgulhosa, como também é uma carta de amor a força das mulheres, sem falar que atrai todos os públicos por trazer aquilo que o mundo inteiro busca, igualdade e união onde um evento como este reúne, e Beyoncé sabe disso, todo seu esforço para fazer a diferença, para inspirar e para exaltar está presente em casa centímetro de projeção, que não só mostra que ela não poupou esforços, como foi bem sucedida no processo em trazer essa revolução através da música que será difícil de ser repetido nesta década.