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O Homem Invisível | Crítica

17 março 2020 0 Comentários

homem invisível

Era uma noite calma, as ondas batiam nas pedras num movimento incessante enquanto a música se elevava aumentando o clima de suspense, logo acima, em uma mansão na encosta de um elevado, na calada da noite, enquanto o marido dormia, uma mulher desesperada desperta de seu sono, ela faz o mínimo de barulho possível para que ele não acorde, seu semblante era de preocupação, mas seu olhar era de uma mulher pronta para deixar sua vida para trás e escapar. É neste clima que o longa O Homem Invisível começa, cercado de mistérios, suspense e correria, dando o tom de uma trama que segue nesta linha sombria do começo ao fim.

O homem invisível é considerado um dos “monstros clássicos” da Universal, junto com Frankenstein, Lobisomem, Drácula, a Múmia, dentre outros que fizeram sucesso no cinema durante as décadas de 30 e 40, sempre no imaginário do cinéfilo como sinônimos máximos do gênero do terror. Esta criação de H.G. Wells ganhou diversos remakes ao longo de décadas sendo última versão protagonizada por Kevin Bacon saiu em 2000 num filme que atualizava o clássico para aquele período, porém perdendo os elementos de terror, mas ganhando no suspense e na ação, tendo alguns toques de ficção científica, o que não agradou muitas pessoas, apesar do filme ser um entretenimento razoável de assistir.

Corta para 2020 e mais uma vez temos uma releitura do clássico, agora com a apadrinhamento da Blumhouse, produtora de Jason Blum, responsável pela maioria dos filmes de terror e suspense da era moderna, como o bem sucedido universo de Invocação do Mal que gerou vários filmes e derivados. A direção desta nova versão ficou a cargo do novato Leigh Whannell, conhecido por ter dirigido o desconhecido, porém excelente longa Upgrade, que aqui mostra mais uma vez um trabalho apurado na direção, apesar de algumas pequenas ressalvas.

Esta versão de O Homem Invisível não só moderniza um clássico, como traz uma roupagem que se mostra bastante atualizada e coerente com a época que estamos vivendo. A narrativa foca na história de Cecília Kass e seu relacionamento com milionário Adrian Griffin, quando a mesma foge dele no meio da noite depois de anos de abuso, Adrian é encontrado morto devido a um suposto suicídio, algum tempo depois, Cecília começa a ficar paranoica ao sentir a presença de alguém a espionando o tempo todo.

homem invisível

crédito: Universal Pictures

O roteiro, também assinado por Leigh, é esperto o suficiente para usar todo o pano de fundo do relacionamento abusivo sofrido por Cecília para criar uma teia de mistério em volta da morte de Adrian, assim como a perseguição que a personagem afirma estar sofrendo de alguém que ela não consegue ver. O Homem Invisível explora muito os efeitos de um relacionamento tóxico e com isso cria um suspense que por muitas vezes se torna uma espécie de terror psicológico que não só deixa a protagonista questionando a própria insanidade, como as pessoas que acercam, além de nós espectadores que somos levados a questionar em alguns momentos se tudo é invenção da cabeça da personagem.

Em alguns momentos, a direção de Leigh é bastante sutil em criar a paranoia, em outras deixa claro para quem está assistindo se a entidade que assombra Cecília é real ou não. São vários truques de câmera, sendo ela estática ou em constante movimento, sempre a espreita que dão um tom bastante intrigante a narrativa, é claro que nem todas as escolhas são felizes, mas no geral funcionam na composição das cenas.

O primeiro ato de O Homem Invisível é a melhor parte do longa, o tom empregado pela direção em conjunto com a trilha sonora dá um tom bastante sufocante e tenso que vai se desenvolvendo bem até as primeiras reviravoltas. Talvez o grande problema deste filme seja o prolongamento de seu segundo ato, que acaba por estender demais o drama da protagonista de forma que isso acaba por afetar o ritmo da trama, levando uma cadência desnecessária, que posteriormente é corrigida quando as revelações tomam conta da narrativa dando a história um novo fôlego levando a um terceiro ato cheio de bons momentos num desfecho surpreendente.

Esta construção narrativa não seria nada, se o longa não tivesse uma protagonista a altura para carregar o filme até seu desfecho inusitado, neste quesito a escolha de Elizabeth Moss (The Handmaid’s Tale, Nós) foi certeira. A atriz consegue dominar o papel com maestria numa atuação simplesmente visceral, transitando de momentos de pura insanidade, passando por atitudes totalmente paranoicas, mas sempre em controle daquilo que ela acredita para provar sua inocência e escapar de seu suposto perseguidor.

homem invisível

crédito: Universal Pictures

Com Moss roubando todas as cenas, fica difícil o resto do elenco conseguir se destacar, mas Aldis Hodge no papel de melhor amigo de Cecília e Storm Reid como filha dele conseguem ter boa presença em cena, assim como Oliver Jackson-Cohen no papel de Adrian, mesmo com poucas cenas, consegue passar a sensação de uma figura obsessiva e doentia completamente obcecada por sua esposa.

O longa consegue ter se destacar nos aspectos técnicos, mas a trilha sonora, edição de som e mixagem de som, são experiências a parte (assista no cinema com a melhor qualidade áudio possível), que conseguem transmitir algo diferenciado ao espectador trazendo uma tensão que vai deixar todo mundo inquieto durante a sessão. Outro ponto que vale ser destacado, como Leigh consegue inserir de forma orgânica os elementos de um relacionamento abusivo no cerne da trama, deixando a trama mais “sobrenatural” mais em segundo plano até a segunda metade do filme, tudo isso de uma forma equilibrada que tornam o longa algo bastante interessante de acompanhar.

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Em tempos de feminicídio, movimento Me Too contra o assédio em Hollywood e leis mais firmes para proteger as mulheres de relacionamentos abusivos, a trama de O Homem Invisível se torna ainda mais relevante por trazer uma crítica social bastante pertinente, sobre o papel da vítima nesses casos; onde sempre leva as pessoas tendem a ficar contra a mesma e aqui é usado de forma inteligente para acentuar a loucura e paranoia da protagonista; além de enfatizar a obsessão do antagonista de uma forma tão sufocante que na narrativa é tratada de uma forma mais extrema transformando o vilão num predador implacável capaz de tudo para controlar e aterrorizar sua vítima.

De uma forma geral, O Homem Invisível é um thriller de suspense que funciona na maior parte do tempo, muito porque a premissa é muito bem executada dentro do que se propõe. A força da atuação de Elizabeth Moss é um trunfo importante para fazer o longa ser bem sucedido em suas ideias, não há um momento que você não se pega sofrendo e torcendo por ela. Confesso que o filme poderia renunciar à cadência imprimida no final da sua primeira metade, que prejudica muito o ritmo da narrativa, talvez com quinze minutos a menos a trama ficaria um pouco mais enxuta e objetiva. No entanto, o longa tem mais acertos do que erros e cumpre de forma bastante eficiente, se calcando num bom suspense em um assunto de pura relevância social, trazendo elementos de terror psicológico numa montanha russa cheia de emoção, violência e ótimas reviravoltas dando a este thriller o título de melhor longa do gênero no ano até o momento.

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