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O ódio que você semeia | Resenha

7 junho 2020 0 Comentários

o ódio que você semeia

 

Há algum tempo atrás, eu e Miguel — outro integrante da nave — tivemos o prazer de conhecer a sede e a gráfica do Grupo Editorial Record, aqui no Rio de Janeiro. Foi uma ótima experiência e dentre os inúmeros livros que ganhamos estava “O Ódio que Você Semeia”, da Angie Thomas. Leitura necessária diante de tudo o que estamos vivendo, não só no Brasil, mas ao redor do mundo.

Começo essa resenha sem mistério algum, contando para vocês que eu simplesmente adorei esse livro e espero convencer todos vocês a lerem a história de Starr. O Ódio que Você Semeia conta a história de uma adolescente de dezesseis anos, negra, e que divide sua vida entre seu bairro — que é um lugar pobre, com conflitos de gangues — e sua escola — onde a maioria das pessoas é branca e rica.

Para lidar com os dois mundos, Starr age como duas pessoas diferentes. Em casa ela pode ser mais ela mesmo, mas na escola, ela assume uma postura diferente, montada para que assim fosse mais aceita no ambiente.

“A Starr da Williamson segura a língua quando as pessoas a irritam para que ninguém pense que ela é a “garota negra cheia de raiva”. A Starr da Williamson é acessível. Não faz cara feia, não olha de canto de olho, nada disso. A Starr da Williamson não gosta de confrontos. Basicamente, a Starr da Williamson não dá motivo para que alguém a chame de garota do gueto.”

E assim ela levava sua vida, até que um dia, voltando de uma festa com seu melhor amigo de infância, Khalil, eles são parados por um policial e ela vê seu amigo sendo assassinado pela autoridade. A partir deste ponto começa a real história do livro, onde inúmeros debates são traçados pelos personagens e pelo leitor, pois apesar de ser uma ficção, infelizmente essa história está presente no dia-a-dia do mundo, muito mais do que imaginamos. No Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é morto, ou seja, 66 vidas negras são perdidas por dia e 4.290 por ano. Isso é um absurdo! Esse assunto precisa ser debatido e, mais do que tecnologicamente, a sociedade precisa evoluir como humanidade!

“Engraçado. Os senhores de escravos também achavam que estavam fazendo a diferença na vida dos negros. Que os estavam salvando do “jeito selvagem africano”. Mesma merda, século diferente. Eu queria que pessoas como eles parassem de pensar que gente como eu precisa ser salva.”

Os discursos que Starr ouvia, são os mesmos que já ouvimos tantas vezes: “ah, ele era bandido”, “o policial se sentiu ameaçado”, “menos um traficante no mundo” e etc. Afinal, quem nunca ouviu que “bandido bom é bandido morto”? Mas vamos lá, em nossa história, Khalil estava desarmado e em nenhum momento ameaçou o policial, eram apenas dois adolescentes negros voltando de uma festa, obedecendo as leis de trânsito. Mesmo assim, o policial em questão atirou três vezes nas costas de Khalil. Quem é o bandido da história?

“Nós deixamos as pessoas falarem certas coisas. E eles falam tanto, que se torna normal pra eles e para nós. Qual é o sentido de ter uma voz, se ficamos calados quando não deveríamos?”

Angie Thomas usa o poder da palavra para nos fazer pensar e quebrar muitos preconceitos. Basta abrir a mente e permitir a desconstrução de conceitos induzidos pela sociedade. A ideia de além do título em português manter também o título em inglês na capa foi perfeito, já que ele tem um significado na história, mas não vou contar para não estragar a experiência de vocês. Esse e outros mistérios sobre o fechamento da história, vou deixar para que vocês leiam, reflitam e sintam.

Sem dúvidas “O Ódio Que Você Semeia” é uma leitura importante. Não achei perfeito, mas a sua qualidade triunfou sobre qualquer defeito. Em um país onde a vida negra é dizimada, um livro desse é mais que necessário. E se você pensa que o mundo está virando um grande “mi-mi-mi”, saia da sua zona de conforto, abra a mente e tente enxergar alguma realidade além da sua. Nós só conseguiremos mudar o racismo estrutural existente na nossa sociedade através do conhecimento e por meio da compaixão perante ao próximo, pois vidas negras importam.

“Mas acho que vai mudar um dia. Como? Não sei. Quando? Não sei mesmo. Por quê?  Porque sempre vai existir alguém para lutar. Talvez seja a minha vez.”

Título: O Ódio Que Você Semeia
Autor: Angie Thomas
Editora: Record (2017)
Páginas: 376

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