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Pachinko | Resenha

7 novembro 2020 4 Comentários

livro

Há uma espécie de consenso ou compreensão generalizada no mundo do teatro em relação a chamada peça escocesa de Shakespeare, MacBeth. Eles dizem que é uma história maligna, que traz má sorte e não ensina nada. Diferente da maioria das histórias sobre o mal, MacBeth não é uma narrativa sobre arrependimento. A maldade é o centro temático e mais nada. A violência, a crueldade e a ganância, no fim da história, se destroem por si só. Eu penso que a maldade, e a tristeza inexorável que vem com ela, ensina quase tudo que é verdadeiro sobre a raça humana. E mesmo que a verdade seja quase sempre difícil, ela é a parte mais necessária da nossa cultura.

Pachinko, da autora coreana Min Jin Lee, é a história de um milhão de coisas terríveis que as pessoas podem fazer umas com as outras. A guerra, a pobreza, a fome, a humilhação da diferença, seja nacional ou de gênero, um milhão de pequenas tristezas compondo as gerações de uma família de imigrantes coreanos que chegam ao Japão durante o conturbado período colonial.

No início dos anos 1900, quando o Japão tinha tomado a Coréia como posse colonial (para depois largá-la na pobreza, deixando um vazio de poder que culminou na divisão do país entre Norte e Sul que perdura até os dias atuais), Sunja, uma adolescente pobre, foi enganada por um homem rico e deixada para lidar sozinha com a desonra de sua família, já que a gravidez não ficaria em segredo por muito mais tempo. Um pastor cristão, no entanto, que passava pelo vilarejo em seu percurso para o Japão, pede Sunja em casamento, decidido a dar um sobrenome a seu filho.

“A história falhou conosco, mas não importa.”

Pachinko, conforme a própria autora, é uma história sobre vozes por muito tempo silenciadas. Colonizados pelos japoneses em seu próprio país, indesejados como imigrantes no Japão, os coreanos do livro são gerações e mais gerações de pessoas primeiro tentando entender seu lugar no mundo e depois o reivindicando. Sunja, bem como seus filhos, Noa e Mozazu, bem como seus cunhados, Yoseb e Kyunghee, bem como seus netos e todas as outras histórias que orbitam em torno dos salões de Pachinko, conta uma outra face da segunda guerra mundial, conta sobre outras vidas, sobre tantas outras coisas que se perderam no fogo das bombas atômicas.

Para nós, ocidentais, Pachinko soa quase como se a História (em letras maiúsculas, como uma lição de escola), como se a própria realidade fosse uma coisa completamente nova. A gente tem acesso a um turbilhão quase infinito de informações, mas é quase como se a história da cultural das outras pessoas fosse algo além da nossa imaginação. Eu não fazia ideia que a situação dos coreanos no Japão fosse, até hoje, uma vida de disputa. Eu não fazia ideia de que garotos de doze anos se jogavam de prédios no Japão por serem coreanos e se sentirem deslocados e expatriados. A lição de história, por si só, é um valor cultural da obra, mas a ficção de Pachinko também importa. Seus personagens, seus destinos, suas escolhas. Há muita coisa para ver entre as quase seiscentas páginas. E quando acaba, a sensação é de que a vida continua, que o sofrimento continua, que a maldade ainda faz parte da alegoria humana.

Nos salões de Pachinko, as máquinas caça-níqueis giram os destinos e, no fim, independente de qualquer coisa, algumas vidas sempre vão ter mais sortes que outras. Somos criaturas extremamente aleatórias. Acho que é isso que a maldade em MacBeth ensina. Acho que é o que Pachinko quis dizer também.

autora

Pachinko chegará ao Brasil pela Editora Intrínseca no dia 14 de Dezembro. A obra será adaptada como série de TV pela Apple com Lee Min-ho, Jin Ha, Anna Sawai, Minha Kim, Soji Arai e Kaho Minami no elenco. Min Jin Lee, a autora, nasceu em Seoul, na Coréia do Sul, mas vive nos EUA desde os sete anos de idade. Pachinko, lançado originalmente em 2017, é seu segundo romance e foi finalista do National Book Award.

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