Últimos Posts
literatura category image

Resenha | Tudo o que nunca contei

18 novembro 2019 0 Comentários

Tudo o que nunca contei foi lançado originalmente em 2014 e, no Brasil, em 2017, pela editora Intrínseca. Escrito por Celeste Ng, o livro acompanha o processo de luto e redescoberta da família Lee após a morte suspeita de Lydia, a filha do meio, estudante reconhecidamente brilhante e garota dos olhos dos pais.

Apesar de inicialmente parecer um mistério, Tudo o que nunca contei é um romance familiar da melhor qualidade, que segue individualmente cada um dos membros restantes da família Lee e investiga minuciosamente seus desejos, medos e motivações.

Passado nos anos 1970, o livro começa com a percepção do desaparecimento durante o café da manhã. Já neste momento, a autora inicia uma construção cuidadosa do núcleo familiar que acompanhamos pelo restante do livro, desde Marilyn, uma mãe extremamente dedicada à educação de Lydia, a ponto de a excelência se tornar um fardo, até Hannah, a terceira filha silenciosa e quase esquecida no meio dos dramas que crescem no tumulto causado pelo luto.

Há algo de muito singular na narrativa de Ng. Ainda que nunca deixe de mover a história para frente, ao mesmo tempo, consegue levar o leitor para meses, anos e até mesmo décadas atrás, mostrando não apenas o caminho que seus personagens estão trilhando, mas também a estrada que os levou até o ponto em que os conhecemos. Sinoamericana, ela desenvolve um romance familiar denso que, além dos pesares e rancores já comuns em todas as famílias, carrega também o peso de um núcleo inter-racial numa época em que a desconfiança e preconceito por outras etnias era ainda mais enraizado nos Estados Unidos. Não apenas isso – ela torna este detalhe uma parte intrínseca de cada um dos personagens, das situações pelas quais eles passam e de como isso molda seus caráteres. Ainda que a representatividade seja um tema cada dia mais importante, permanece a dificuldade encontrar livros que realmente englobem, decifrem e exponham a experiência estrangeira e imigrante da maneira como Celeste fez, desde as microagressões até o preconceito concreto.

Ainda que a autora tenha lançado apenas mais um romance (Pequenos incêndios por toda parte, Intrínseca, 2018), é difícil imaginar, agora, um futuro sem mais histórias hipnotizantes escritas por ela. Tudo o que nunca contei é facilmente o melhor livro que li em 2019, e esperarei ansiosamente por qualquer outra história que Celeste Ng decida contar.

“Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã.”