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Spoonbenders: A Fabulosa Família Telemachus | Resenha

18 setembro 2020 0 Comentários

Spoonbenders: A Fabulosa Família Telemachus

No finzinho dos anos 1960, a família Telemachus viajava os EUA exibindo sua coletânea impressionante de dons sobrenaturais. Havia o pai, Teddy, capaz de brincar com as cartas e com a imaginação dos otários que se deixavam envolver em seus truques. Havia seus filhos, Irene, a mais velha, capaz de identificar qualquer mentira contada diante dela; Frankie, o filho mimado do meio, cheio de manias de grandeza, capaz de mover objetos com a mente; e Buddy, o mais novo, esquisito e retraído, capaz de prever o futuro. E havia, claro, a mãe, Maureen, a paranormal mais poderosa do mundo inteiro. Eram tempos de acreditar em maravilhas e as pessoas estavam encantadas. Até que de repente, num programa de televisão, um mágico de pouquíssimas habilidades desmascarou a farsa da família e os deixou cair no ostracismo.

Spoonbenders: a fabulosa família Telemachus, de Darryl Gregory, é uma estranha comédia de costumes sobre a queda dos poderosos e sobre como funciona (ou pelo menos tenta funcionar) uma família disfuncional em absolutamente todos seus os aspectos.

A história avança para os anos 1990. Maureen foi levada pelo câncer. Na época, havia pouquíssimo a fazer contra a doença. Mesmo para a paranormal mais poderosa do mundo. Seu marido se recolheu no próprio sofrimento narcisista e deixou os filhos se espalharem como cacos pela vida. Buddy não fala há anos e se escondeu dentro das próprias memórias (que vão tanto para frente quanto para trás). Irene não conseguiu lidar com as mentiras cotidianas de seus relacionamentos conturbados e voltou para casa do pai, com um filho adolescente debaixo do braço. Frankie, colecionando uma série de fracassos, mente para esposa e para os filhos sem saber muito bem como lidar com suas dívidas com a máfia.

Embora, a princípio, possa parecer uma sessão de terapia dos X-Men, Spoonbenders se vende na originalidade de sua abordagem e na complexidade de seus personagens, que vão se moldando, mudando e se reinventando através das décadas. Enquanto a história explora o ponto de vista de cada personagem, suas mágoas e tramas mal resolvidas, o mundo do lado de fora, para além da casa da família, também se transforma e cada vez mais se assoma como uma ameaça.

Spoonbenders: a fabulosa família Telemachus pode parecer, à primeira vista, a caricatura contemporânea de um drama familiar, humor ácido e sarcasmo por cima do pastiche de sempre, mas, o que de fato sobra depois da última linha é uma história de amor. Há muita poesia no modo como Darryl Gregory deu poderes aos seus personagens só para que eles se sentissem inúteis. A individualidade da família Telemachus está nas partes de seus relacionamentos que se descobrem ordinárias e convencionais. Eles não precisavam salvar o mundo, não se não quiserem, eles só precisam redescobrir a empatia um pelos outros.

Um livro bonito sobre temas difíceis, a ironia e a acidez do autor trazem aspectos de leveza, mas, no fim do dia, a verdade sobre a dor de viver é o que mais se sobressalta.

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