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Você Nem Imagina (The Half of It) | Crítica

11 maio 2020 0 Comentários

você nem imagina

Recentemente a Netflix colocou em seu catálogo o filme Você Nem Imagina (The Half of It) e ao ver o trailer eu me senti ao mesmo tempo curiosa e temerosa. E preciso avisar: Talvez esse texto seja mais sobre o meu relacionamento com esse filme do que sobre ele em si, e eu não me importo nem um pouco em admitir.

Ainda que a plataforma de streaming venha fazendo um trabalho bem interessante em inserir representatividade em suas séries e filmes originais, trazendo inclusive obras estrangeiras em línguas não ocidentais, toda vez que vejo um filme norte-americano com protagonista asiático, principalmente de ascendência japonesa, coreana ou chinesa, sinto receio. É claro que isso se deve mais a problemas meus do que da Netflix – à maneira como fui criada e à minha proximidade, ou falta dela, com a cultura dos meus antepassados. No entanto, pessoalmente, acho importante falar que esse filme teve um significado muito especial pra mim.

Você Nem Imagina é a história – uma pequena parte dela – de Ellie Chu (Leah Lewis), uma estudante que vende trabalhos de literatura e cuida do pai, um imigrante chinês que não encontrou as oportunidades que esperava nos Estados Unidos. Ao ser abordada por Paul (Daniel Diemer), um garoto que ao invés de comprar sua escrita em trabalhos escolares, quer pagá-la para fazer uma carta de amor para parecer mais inteligente. Ellie acaba começando uma jornada pelos próprios sentimentos em relação a si mesma, Paul, e Aster (Alexxis Lemire), a garota que ele quer impressionar.

Antes de mais nada, Você Nem Imagina (The Half of It) me trouxe certa nostalgia. Foi impossível não lembrar de A Marca de Uma Lágrima, por causa da história das cartas de amor (mas não se preocupem, o filme tem menos drama!). Em seguida, me levou de volta por alguns instantes para a fase da minha vida em que o meu nome era a piada dos colegas, mas me permitiu assistir de um lugar em que o incômodo não é tão central na minha própria narrativa.

As pequenas violências que os asiáticos sofrem no ocidente não são o centro da história, mas ajudam a criar uma sensação de pertencimento que certamente todos que já foram o epicentro de uma onda de risadas depois de um “abre o olho!” vão saber do que se trata. E, ao mesmo tempo, a narrativa não exclui as pessoas que não passaram por estas experiências, porque a história não é só sobre isso.

Provavelmente o que eu mais gostei nesse filme foi o equilíbrio perfeito dessa constante: ainda que exista uma clara linha entre Ellie e seus colegas, o filme não é sobre a jornada de uma descendente de chineses nos Estados Unidos, e sim a jornada de Ellie Chu, que por acaso é descendente de imigrantes, mas além disso também é uma escritora talentosa que acredita que está fadada a viver para sempre em uma cidade no meio do nada chamada Squahamish, e não sabe bem o que sente em relação a Aster Flores, a colega de coral para quem está escrevendo fingindo ser Paul.

the half of it

E, falando em Paul, provavelmente as cenas que mais gostei no filme foi dele correndo ao lado de Ellie em sua bicicleta. Fica aí um parabéns para o ator, que deve ter passado muito tempo correndo durante as gravações.

Você nem Imagina não segue nenhuma direção específica, exceto para frente. Ainda que os relacionamentos entre Paul, Aster e Ellie movam a trama, os motivos pessoais dos personagens e suas buscas pelo próprio futuro é que definem o horizonte. A diretora e roteirista, Alice Wu, criou uma história que não se move de A até B, e sim que, na jornada dos protagonistas, mostra o pequeno recorte representado pela intersecção de suas vidas. É uma história de amizade e crescimento.

Por esses motivos e vários outros, principalmente para quem gosta de filmes em que o final é só o começo, Você nem Imagina é uma ótima pedida.

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